O presidente russo, Vladimir Putin, concedeu uma abrangente entrevista à emissora indiana India Today, onde abordou temas como a transição hegemônica global, os limites da hegemonia ocidental e a parceria estratégica entre Moscou e Nova Délhi. Às vésperas de uma visita de Estado à Índia, Putin demonstrou convicção na irreversibilidade de um mundo multipolar e enfatizou a ascensão do Sul Global, especialmente o papel das potências emergentes do BRICS, no redesenho da governança e da economia global.
Índia como ator global e desdolarização do comércio
Putin defendeu a soberania da política externa indiana, liderada pelo primeiro-ministro Narendra Modi, diante das pressões ocidentais sobre o comércio bilateral russo-indiano. Ele afirmou que a Índia é um ator global e não pode ser tratada como era há 77 anos, elogiando a postura de Modi. O presidente russo também desmistificou a ideia de que o comércio energético entre as duas nações seria oportunista, lembrando de investimentos russos no refino indiano antes de 2022. Além disso, questionou a hipocrisia das sanções, citando a importação de urânio russo pelos EUA enquanto criticam a Índia.
Um dos pontos cruciais da entrevista foi a revelação de que mais de 90% das transações bilaterais entre Rússia e Índia já são liquidadas em moedas nacionais, blindando o comércio do sistema financeiro ocidental. Questionado sobre uma moeda comum do BRICS, Putin defendeu uma abordagem gradualista, visando consolidar mecanismos de liquidação em moedas locais e instrumentos digitais de pagamento para evitar erros e garantir transações livres de bloqueios políticos.
Crítica ao G7 e a questão ucraniana
O líder russo rejeitou a ideia de retorno ao formato G8, argumentando que as antigas estruturas multilaterais do Norte Global perderam representatividade e vitalidade econômica. Ele destacou que economias como Índia e China já superaram potências europeias em paridade de poder de compra, e ressaltou a consolidação de novos polos de desenvolvimento no Sul Global. Putin afirmou que as relações no BRICS buscam uma cooperação civilizatória, respeito à diversidade cultural e soberania compartilhada.
Sobre a crise ucraniana, Putin reiterou que as raízes do conflito estão no golpe de Estado de 2014 em Kiev e na expansão da OTAN. Ele defendeu que o fim das hostilidades exige o reconhecimento das realidades territoriais e a garantia de neutralidade para a Ucrânia. Em relação ao cenário político nos Estados Unidos, Putin expressou a crença de que o presidente Donald Trump busca sinceramente um caminho para o cessar-fogo, mas alertou que qualquer solução negociada precisa considerar os interesses econômicos e fatores geopolíticos estruturais que alimentaram o impasse.







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