Há coisas que, de tão antigas, parecem novas. A interferência estrangeira na política brasileira é uma delas. Talvez a trágica novidade seja que hoje um dos presidenciáveis já tenha se comprometido a entregar a presidência ao departamento de estado dos EUA, desde a transição.
Basta olhar um pouco para trás – não muito – para perceber que a soberania de um país nunca foi apenas uma palavra bonita nos discursos oficiais. Ela é uma disputa permanente. Disputa econômica, política, diplomática e, às vezes, eleitoral.
O Trump está tentando influenciar a eleição brasileira para favorecer um governo Bolsonaro. Tarifas, sanções, restrições de vistos e ataques políticos fariam parte dessa estratégia.
A história oferece exemplos.
Em 1946, os Estados Unidos tentaram impedir a ascensão de Juan Domingo Perón na Argentina. Perón venceu, e o nacionalismo argentino encontrou naquela interferência externa um poderoso argumento político; décadas depois, a história parece oferecer uma nova versão do mesmo fenômeno, novamente na Argentina, Trump apoiou abertamente Javier Milhei e antes das eleições legislativas de 2025, Washington chegou a condicionar ajuda financeira ao comportamento eleitoral dos argentinos. E, desta vez, a interferência não encontrou resistência suficiente para produzir o efeito contrário.
No Brasil, ainda não sabemos o resultado da interferência de Trump, mas até que ponto aceitamos que uma potência estrangeira diga aos brasileiros quem deve governar o Brasil? Há incautos ou pessoas vis que desejam que Trump interfira.
Não se trata de defender Lula, Flávio Bolsonaro, Cury ou qualquer outro candidato. Trata-se de uma questão anterior às preferências eleitorais: a decisão sobre o futuro do país pertence aos brasileiros, ou não?
É uma questão de soberania. E soberania, em democracia, não significa concordar com o governo de turno. Significa reconhecer que a escolha do governo deve ser garantida pelas instituições e escolhida pelos cidadãos do próprio país.
Em 2022, a democracia ocupava o centro do debate eleitoral, o ambiente era de enorme polarização e havia uma preocupação concreta com a possibilidade de ruptura institucional, o que quase ocorreu. Lula apresentou-se naquele momento menos como candidato de esquerda e mais como candidato da democracia.
Quatro anos depois, o cenário mudou. A democracia continua sendo uma questão fundamental, mas já não parece ocupar o mesmo espaço no debate público: economia, segurança pública e crime organizado ganharam protagonismo e talvez isso seja natural.
Democracia não é apenas votar, é também comer, trabalhar, morar, estudar, circular pelas cidades sem medo, pagar as contas e acreditar que amanhã poderá ser um pouco melhor que hoje.
O fato que a História mostra é: quando a melhora que a democracia traz e garante não é percebida pelas pessoas, ela perde parte de sua força simbólica, foi assim na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler.
Os números macroeconômicos, por sua vez, contam apenas uma parte da história, pois, apesar de Lula 3 ter reduzido a pobreza e a pobreza extrema, embora o desempenho econômico dos últimos anos seja muito bom, embora os juros elevados tenham atrapalhado, a percepção do cidadão comum é que Lula 3 “não entregou” o que prometeu, apesar de ter entregue muito mais do que as promessas de campanha.
É aí que aparece uma velha questão brasileira: a diferença entre o país que aparece nas planilhas e o país que aparece na mesa de jantar, pois, o PIB pode crescer, a inflação pode estar controlada, o desemprego pode cair, como caiu, mas se o cidadão não percebe isso na sua vida, a estatística não produz confiança.
Política é, em grande medida, percepção.
Se por um lado o STF teve papel importante na defesa da democracia durante o governo Bolsonaro, a forte politização da Corte, fruto da judicialização de alta intensidade, também pode produzir riscos e uma postura mais moderada teria sido desejável.
Defender a democracia torna nenhuma instituição em instituição acima de críticas, afinal, a democracia pressupõe instituições fortes, mas também instituições submetidas às regras, aos limites constitucionais e ao escrutínio público.
Não devemos permitir que Washington escolha nosso presidente, mas também não devemos permitir que Brasília escolha nossa consciência, nem o governo, nem a oposição, nem o Supremo, nem os partidos, nem os influenciadores, nem as redes sociais.
A democracia pressupõe cidadãos livres para escolher, instituições capazes de respeitar as regras e governos que compreendam que o poder recebido nas urnas não lhes pertence.
A democracia pertence, sempre, ao povo, não a outro país ou grupo.







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