Dario Durigan, Ministro da Fazenda interino, tem realizado encontros com importantes nomes do setor financeiro brasileiro para alinhar diretrizes da política econômica a serem adotadas em um eventual novo governo do Presidente Lula. Durigan assumiu a pasta após Fernando Haddad ser cotado para disputar o governo de São Paulo. A estratégia do ministro interino busca consolidar sua posição para um mandato efetivo caso Lula seja reeleito.
Em suas conversas, Durigan tem defendido o aprofundamento da austeridade fiscal a partir de 2027. Entre as propostas discutidas, que ainda não foram anunciadas oficialmente pelo presidente, estão a eliminação ou flexibilização dos pisos constitucionais para saúde e educação, e a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário mínimo. Essas ideias têm sido ventiladas no governo desde o início de 2023. A Ministra do Planejamento, Simone Tebet, já havia manifestado intenção semelhante em março de 2025, indicando a necessidade de um 'dever fiscal' em 2026 para evitar dívida pública e inflação.
Gastos com juros versus austeridade seletiva
O discurso pela austeridade fiscal, focado na contenção de gastos públicos, muitas vezes negligencia o impacto dos juros da dívida pública. Enquanto se discute cortes em áreas sociais como previdência, educação e saúde, os gastos financeiros permanecem intocados. Recentemente, o Banco Central revelou que as despesas com juros da dívida pública continuam a crescer acentuadamente. Em junho, esse montante atingiu R$ 111 bilhões, representando R$ 4,4 bilhões por dia útil. No primeiro semestre do ano, o total de juros alcançou R$ 570 bilhões, um aumento de 37% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Apesar desse cenário, o Ministério da Fazenda tem implementado um controle rigoroso sobre os dispêndios não-financeiros, limitando seu crescimento real a 2,5%, conforme o Arcabouço Fiscal. No entanto, os gastos acumulados com juros entre julho de 2025 e junho de 2026 somaram R$ 1,2 trilhão. Esse valor contrasta com a expectativa de superávit fiscal, que não tem sido alcançado em anos anteriores. A prática de retirar as despesas financeiras do cálculo para anunciar um resultado 'primário' tem mascarado um déficit fiscal trilionário.
O silêncio sobre os juros e o déficit fiscal
Durigan tem se mantido em silêncio sobre o elevado gasto com juros, apesar de reiterar a necessidade de um arcabouço fiscal mais rígido. Dados da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) mostram que, desde 1997, o Brasil nunca obteve equilíbrio ou superávit no resultado fiscal nominal. A média do déficit anual para 29 anos foi de 4,2% do PIB, chegando a 7,7% nos três primeiros anos do atual governo. A existência de déficit fiscal, no entanto, não é um cenário exclusivo do Brasil e não necessariamente indica uma catástrofe econômica. Muitos países capitalistas operam com níveis de endividamento superiores.
O grande problema reside na natureza dos gastos. A maior parte do déficit fiscal brasileiro provém das despesas financeiras, como o pagamento de juros da dívida governamental. Dessa forma, a narrativa de que o Estado precisa cortar gastos sociais, como Bolsa Família, para reduzir o déficit fiscal é questionável. Se o desequilíbrio orçamentário fosse tão urgente, o primeiro passo deveria ser cortar a despesa que mais impacta o déficit, ou seja, os juros. Entretanto, esse debate é evitado.







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