A política de segurança dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, desde a posse de Donald Trump em janeiro de 2025, tem se estendido significativamente além da defesa de seu próprio território. Essa estratégia entra agora em uma nova fase, com o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciando no Panamá a intenção de agir contra grupos criminosos não apenas no mar, mas também diretamente em território de nações aliadas.

Honduras já concordou com operações militares conjuntas, e a Colômbia, sob a presidência de Abelardo de la Espriella, estabeleceu uma cooperação militar próxima, incluindo ações diretas contra grupos armados. O Peru, com a nova presidente Keiko Fujimori, também demonstra inclinação para um acordo similar. No Equador, a participação dos EUA em operações militares já é uma realidade desde que o presidente Daniel Noboa declarou um “conflito armado interno” contra gangues criminosas. Apesar de um referendo de 2025 ter rejeitado a instalação de bases militares estrangeiras, o Equador realiza operações conjuntas com os EUA desde março.

“Escudo das Américas” e a Doutrina Donroe

A justificação para essas ações incluiu a adição de 20 organizações criminosas latino-americanas à lista de “organizações terroristas estrangeiras” do governo dos EUA, equiparando-as legalmente a grupos como ISIS e Al-Qaeda. Essa lista abrange cartéis mexicanos, grupos “Maras” da América Central e antigos guerrilheiros colombianos. Desde junho, mesmo com objeções do Brasil, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho também foram incluídos. Os EUA chegaram a atribuir o ataque aéreo a instalações militares na Venezuela e a prisão do líder Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, à luta contra o terrorismo, considerando-o um dos líderes do suposto “Cartel dos Sóis”.

A Colômbia, sob Abelardo de la Espriella, aderiu ao “Escudo das Américas”, uma aliança militar criada por Trump em março que agora conta com 19 países. Seu braço militar, a “Coalizão Americana para o Combate aos Cartéis”, visa trocar informações de inteligência, treinar militares e coordenar operações conjuntas. Com a entrada da Colômbia, o principal produtor de cocaína e parceiro militar dos EUA na América do Sul, a importância da aliança cresceu. O Secretário Hegseth confirmou discussões com Bogotá sobre ataques conjuntos contra o Exército de Libertação Nacional e ex-unidades das FARC.

Implicações políticas e geopolíticas

O “Escudo Americano” vai além do combate ao narcotráfico, transformando-se em um sistema de segurança liderado por Washington para o Hemisfério Ocidental. Ele busca também limitar a influência de potências externas como Rússia e China na América Latina. Essa abordagem, que alguns críticos denominam “Doutrina Donroe” em alusão à Doutrina Monroe, tem como característica a afinidade política entre muitos de seus participantes, que compartilham uma política de segurança intransigente, combinada com reacionarismo e conservadorismo social. As áreas de atuação de grupos criminosos, onde a violência e o medo prevalecem, têm tido implicações políticas, sendo exploradas pela direita em campanhas eleitorais na América Latina.