Em recente declaração, o presidente Donald Trump anunciou a criação de uma “AI Force” e a nomeação de um czar de inteligência artificial, ao mesmo tempo em que descartou apelos por uma desaceleração da implementação da IA, qualificando-os como um "embuste politicamente motivado". Ele enfatizou que seu governo não obstruirá o crescimento da indústria e que o sistema legal existente seria suficiente para coibir abusos. Essa postura contrasta com uma ação anterior do mesmo governo, que três meses antes ordenou à empresa Anthropic que restringisse o acesso de estrangeiros, inclusive funcionários, a modelos de IA, alegando segurança nacional. A Casa Branca não esclareceu a natureza militar ou civil da nova força.

Políticas internas vs. externas

Internamente, a política dos EUA é de aceleração da IA. Trump chegou a projetar que a inteligência artificial poderia alcançar 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, colocando os Estados Unidos à frente da China e do resto do mundo. Ele criticou a reação popular contra data centers, um tema que gerou divisões até mesmo dentro do Partido Republicano. O modelo de fiscalização proposto para dentro do país parece operar apenas após a ocorrência de danos, transferindo o ônus da prova para a vítima e desconsiderando a assimetria de informações entre desenvolvedores e usuários. Não foram anunciadas obrigações prévias de teste, documentação ou auditoria.

No cenário internacional, a tecnologia de IA é tratada como um ativo estratégico sob controle rigoroso. O incidente com a Anthropic demonstrou a capacidade dos EUA de suspender o acesso a tecnologias remotamente, uma ação que gerou preocupação em outros países. O presidente da França, Emmanuel Macron, alertou no G7 que essa capacidade de 'desligar a chave' a qualquer momento mina a confiança nas empresas americanas. Essa dualidade é percebida como uma política coerente, onde o risco da IA é minimizado quando favorece o crescimento da indústria americana e amplificado quando define o acesso de estrangeiros à tecnologia.

Impacto global e a questão da destilação

A 'Pax Silica', uma iniciativa que reúne 35 países para alinhar políticas de regulação pró-inovação e recursos críticos, é um exemplo da arquitetura criada em torno do controle da IA. Essa iniciativa, que proíbe dupla filiação com empresas chinesas como a WAICO, reforça o controle sobre a tecnologia. Países como a Índia, signatária da Pax Silica, precisaram de garantias de que a tecnologia já concedida não seria desativada.

A prática da destilação, que permite treinar modelos menores a partir de modelos já existentes a um custo reduzido, é outro ponto de tensão. Embora seja um caminho economicamente viável para muitos países desenvolverem suas próprias IAs, a restrição dessa prática, proposta por alguns laboratórios, pode funcionar como uma barreira de entrada para nações que buscam se capacitar em inteligência artificial. Essa abordagem contraria a ideia de desaceleração em nome da humanidade, transformando-a em uma barreira de custo.

A semana atual é considerada crucial para as decisões sobre a regulamentação da IA. Estão previstos eventos de alto nível sobre inteligência artificial na Assembleia Geral das Nações Unidas e uma reunião do Conselho de Segurança. Além disso, a visita do presidente chinês Xi Jinping a Washington, com chips avançados e segurança em IA na pauta, pode redefinir o cenário global da tecnologia. As decisões tomadas nesses encontros impactarão o ritmo da inteligência artificial que países como o Brasil e o restante do Sul Global irão importar, muitas vezes sem representação nas mesas de decisão.