247 – A Polícia Civil de São Paulo aponta que o Discord levou até 17 dias para responder a pedidos emergenciais de remoção de conteúdo relacionados a crimes graves, como automutilação, estupro virtual, ataques a escolas, tortura de animais e exploração sexual de menores.
As informações constam de relatório do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), revelado pela Folha de São Paulo, que identifica um “padrão consistente de omissão operacional” da plataforma na moderação de conteúdos e na cooperação com autoridades policiais brasileiras.
O documento, intitulado Análise da Responsabilidade do Discord na Moderação da Plataforma e na Cooperação com a Autoridade Policial, foi encaminhado ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP), à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e à Advocacia-Geral da União (AGU). Procurado por e-mail pela Folha para comentar o relatório, o Discord não respondeu até a publicação da reportagem.
Segundo a Polícia Civil, os investigadores analisaram 63 comunicações emergenciais e requisições enviadas ao Discord entre maio de 2025 e janeiro de 2026. Os casos envolviam transmissões ao vivo com incitação ao suicídio, vazamento de fotos íntimas de menores para chantagem, salas usadas para estupros virtuais e automutilações, além de planos de ataques a escolas e de atear fogo em moradores de rua.
Em um dos episódios citados, a plataforma levou 190 horas — quase oito dias — para responder e derrubar uma sala usada para estupros virtuais e automutilações. Para os investigadores, a demora na retirada de ambientes criminosos permite que as violações continuem em tempo real, mantém a audiência ativa, facilita a disseminação dos conteúdos e prolonga a exposição das vítimas.
Embora a média de atendimento das notificações tenha sido de 17 horas, o relatório aponta atrasos muito superiores em casos considerados emergenciais. Em julho de 2025, um pedido para remover uma sala sobre a matança de gatos levou 16 dias e 18 horas para ser respondido e terminou com recusa da plataforma. Em outro caso, um alerta emergencial sobre maus-tratos transmitidos ao vivo, enviado em 4 de agosto, ainda não havia recebido resposta, de acordo com o documento.
A Polícia Civil também afirma que o Discord tem fornecido dados insuficientes para a identificação de usuários investigados. Segundo o relatório, a plataforma envia apenas endereços de IP no padrão IPv4, sem a chamada “porta lógica de origem”, informação que pode ser essencial para identificar a conexão usada por uma pessoa em determinado momento.
O documento explica que um mesmo IP pode ser compartilhado por vários usuários, especialmente quando operadoras utilizam tecnologias que permitem a múltiplos clientes acessar a internet por meio de um único endereço. Nesses casos, a porta lógica ajuda a apontar qual conexão estava por trás daquele IP. Para os investigadores, não haveria impedimento técnico para que o Discord registrasse e fornecesse esse dado.
Outro ponto central do relatório é a atuação de grupos dentro do Discord que, segundo a avaliação da polícia, passaram a operar de forma semelhante a organizações criminosas. Esses grupos, de acordo com o Noad, tinham divisão de tarefas, financiamento e estrutura mantida para a prática de crimes.
Entre os alvos identificados está um adolescente brasileiro que vive na França e foi incluído no Alerta Azul da Interpol a pedido do Noad. A investigação o aponta como suposto responsável pela criação de um dos maiores acervos de pornografia infantil identificados no Discord, obtido por meio da extorsão de menores. Ele também teria financiado integrantes da célula brasileira, com pagamento de fianças, compra de armas e munições e manutenção de servidores.
As operações NIX, NIX II e NIX III, chamadas de Oculus Legis, resultaram na apreensão de adolescentes que, segundo a Polícia Civil, estavam envolvidos em invasões de dados públicos, apologia ao nazismo, ameaças a autoridades e planejamento de ataques terroristas no aplicativo.
A partir das investigações, a Polícia Civil passou a defender medidas judiciais e administrativas para obrigar o Discord a adotar mecanismos de verificação de idade e monitoramento preventivo. O relatório foi enviado à ANPD em 21 de agosto, em meio ao aumento da pressão de autoridades brasileiras sobre a plataforma após a morte de uma adolescente de 13 anos em Mato Grosso do Sul. A jovem teria sido induzida por outros adolescentes à automutilação e ao suicídio em cenas exibidas no aplicativo.
O caso levou a primeira-dama Janja Lula da Silva a pedir o bloqueio do Discord no Brasil. Em 12 de agosto, a ANPD determinou a suspensão das transmissões ao vivo e de outros recursos de vídeo da plataforma no país, até que a empresa comprove a adoção de medidas efetivas para proteger crianças e adolescentes.
A decisão da ANPD, porém, é um processo diferente do procedimento que resultou no relatório da Polícia Civil. A divulgação do documento ocorre também em meio à retomada de apurações contra a empresa. Um procedimento do MP-SP havia sido arquivado, com homologação pelo Conselho Superior da instituição em outubro de 2024, mas foi reaberto em fevereiro de 2026 após o recebimento de novos elementos produzidos pela Polícia Civil.
De acordo com as investigações, persistem dificuldades na prevenção e interrupção de práticas ilícitas e na cooperação do Discord com as autoridades brasileiras. Nesta quarta-feira (2), uma audiência na Justiça Federal, em Brasília, discute o andamento de uma Ação Civil Pública contra a plataforma. A ação cobra mecanismos de moderação, verificação compulsória de idade e vinculação de menores a responsáveis.
Em manifestações anteriores, o Discord afirmou não tolerar conteúdos ilícitos ou abusivos e disse combinar inteligência artificial, denúncias de usuários e cooperação com autoridades para reforçar a segurança e a moderação da plataforma.






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