247 – Preso sob acusação de matar a esposa, a soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, o tenente-coronel da reserva Geraldo Leite Rosa Neto afirmou que passou a ocupar uma posição de submissão dentro do Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo. Em depoimento à Corregedoria da Polícia Militar, ele relatou que precisa pedir autorização a soldados para entrar na cela, cumprir tarefas de limpeza e buscar as refeições dos presos.

As declarações foram reveladas pelo Metrópoles, que teve acesso ao interrogatório prestado por Geraldo no âmbito do Inquérito Policial Militar aberto para investigar a morte de Gisele.

“Eu sou um escravo”, declarou. E acrescentou durante a oitiva: “Só Deus sabe o que eu tô sofrendo aqui dentro”.

O oficial afirmou que a rotina na unidade representa uma inversão da hierarquia que vivenciou ao longo da carreira militar. Segundo seu relato, a maior parte dos detentos é formada por cabos e soldados, enquanto oficiais são minoria no presídio.

“Aqui, eu não sou o Geraldo que a imprensa acusa de matar a Gisele. Aqui, dentro dos internos, eu sou o tenente-coronel que assassinou uma soldado”, afirmou.

Geraldo disse ainda que, mesmo sendo oficial superior, precisa se submeter à autoridade informal dos presos mais antigos dentro das celas.

“Eu entro na cela, eu peço permissão para o mais antigo da cela, que é um soldado.”

De acordo com o tenente-coronel, sua rotina inclui lavar banheiro, louças e corredores, realizar faxinas e buscar café da manhã, almoço e jantar. Ele afirmou que, dentro da unidade, existem regras oficiais e normas estabelecidas pelos próprios presos.

O militar também relatou que divide o presídio com policiais que já estiveram sob sua fiscalização durante o período em que ocupou postos de comando nas zonas leste e oeste da capital paulista. Segundo ele, alguns desses agentes o abordam e fazem cobranças relacionadas à atuação que teve fora da prisão.

“Esses policiais me encontram [no presídio] e me cobram”, disse.

Geraldo lembrou que, em janeiro de 2025, chegou a dar voz de prisão a um tenente e a integrantes de um pelotão por insubordinação. Ele afirmou que há, no Romão Gomes, policiais de unidades que estiveram submetidas à sua fiscalização.

No setor em que está preso, segundo o oficial, há 17 policiais. Ele afirmou que o detento mais antigo do grupo é um soldado com menos de cinco anos de corporação e que esse policial exerce a liderança entre os internos.

“Quem é oficial e está aqui, comandante [interlocutor], apenas devia contar, para cada dia cumprido, tinha que contar três. Porque só Deus sabe o quanto é difícil estar aqui dentro, como oficial”, declarou.

As queixas sobre intimidação, cobranças e tratamento diferenciado fazem parte da versão apresentada por Geraldo Neto. O Inquérito Policial Militar não confirma que ele tenha sido alvo de represálias dentro do presídio.

O tenente-coronel deveria prestar depoimento à Justiça comum nesta terça-feira (8), mas o interrogatório foi adiado pela terceira vez. A juíza Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro remarcou o ato para 5 de outubro, às 13h.

A mudança ocorreu após a defesa solicitar novas diligências antes do interrogatório. A magistrada determinou que a perita Amanda Rodrigues Marinone esclareça quem realizou uma gravação mencionada durante audiência e requisitou ao Instituto de Criminalística uma nova complementação dos quesitos apresentados pelos advogados.

Geraldo Leite Rosa Neto responde pelo caso envolvendo a morte da esposa, Gisele Alves Santana. A investigação sobre as circunstâncias da morte segue em andamento, enquanto a defesa busca a produção de novas provas antes de seu depoimento judicial.