Em Guimarães Rosa, viver é atravessar corajosamente os sertões das incertezas e das falsificações, ao fazer escolhas por meio das quais somos transformados e transformamos o ambiente externo ao nosso redor.

A coragem nasce e se manifesta quando compreendemos a existência como a exigência de tomadas de posição diante do mundo. Muito mais que sobreviver, é preciso assumir responsabilidade pelo destino comum construído enquanto humanidade.

Coragem para romper com certezas engessadas em nós que impedem a emergência das mudanças necessárias para o avanço do bem comum. Enfrentar o comodismo que nos aprisiona. Reconhecer no outro não uma ameaça, mas a possibilidade de encontros, de diálogos capazes de elaborar novas sínteses. A verdadeira coragem é uma forma de cuidar da vida, comprometendo-se diariamente com ela. Resistir a tudo que tenta nos desumanizar. É escolher a esperança quando seria mais fácil desistir.

Em recente entrevista à Agência Pública, o teólogo Ronilso Pacheco, diretor-executivo do Instituto de Estudos da Religião (Iser), analisa a construção midiática da imagem do ministro do STF André Mendonça, como mais novo “herói do Judiciário”, porém com algumas especificidades diferentes de outros eleitos pela mídia corporativa dominante como Joaquim Barboza e Sérgio Moro.

Nesta entrevista, Pacheco alerta para o avanço global do nacionalismo cristão, e defende que o combate à instrumentalização religiosa não passa por calar as comunidades de fé; pelo contrário, o caminho para proteger a democracia e o Estado laico exige lideranças religiosas corajosas, capazes de denunciar a mentira e de inspirar a defesa dos direitos humanos, a partir do mais pobres.

A narrativa em construção da imagem do pastor bolsonarista “terrivelmente evangélico” André Mendonça o aponta como homem de fé, “escolhido por Deus” para ocupar espaço do centro do poder, batendo de frente com outros ministros da mais alta corte do país. Tal construção tem como um dos seus objetivos caracterizar como perseguição religiosa qualquer decisão do Plenário da Corte que atinja o ministro pastor.

A manifestação no último 7 de setembro, na já manjada Avenida Paulista, em São Paulo, com o boneco inflável de Mendonça, evidencia o quanto ele está sendo conduzido a ocupar este papel, inflado pelos bolsonaristas, fazendo dele o contraponto ao ministro Alexandre de Moraes, buscando manipular, de forma maniqueísta e fundamentalista, a disputa política das forças no pleito eleitoral de 2026. Reduzir o debate para induzir o eleitorado religioso a uma percepção da eleição como uma luta espiritual de Deus contra o Diabo, do Bem contra o Mal.

De fato, o uso da narrativa religiosa cristã está sendo utilizado pelas forças ultraconservadoras de direita em âmbito internacional (RELIGIÃO EM TEMPOS DE BOLSOFASCISMO. Albuquerque, Alexandre Aragão de. Editora Dialética, 2024).

Isso aparece em praticamente todos os partidos de extrema-direita que ascenderam na Europa nos últimos anos, e principalmente no discurso de Donald Trump, presidente dos EUA.

Por outro lado, há uma ilusão generalizada por parte da população de que o Supremo Tribunal Federal seria uma espécie de santuário, composto por anjos, incapazes de cometer pecados em suas ações. Como se eles estivessem descolados da terra. Ora, nem o STF e nem as igrejas são lugares soltos da realidade mundana. Seus integrantes, ministros, pastores e fiéis são humanos, impactados pelas relações econômicas, políticas e culturais, como também por seus interesses pessoais, familiares e de classe. Ou seja, pecadores.

Assim, é preciso que a sociedade se mobilize em torno do aprofundamento reflexivo e crítico do tempo presente, buscando entender os riscos presentes das propostas autoritárias, das armadilhas da instrumentalização da extrema direita bolsonarista que se comporta como lobos em pele de ovelhas.

É preciso que as lideranças políticas e religiosas inspirem seus partidos políticos e suas comunidades de fé a defenderem a democracia, o Estado laico, os direitos humanos, as diferenças, comprometidas com a construção de um Brasil justo.