As regras migratórias da Argentina foram endurecidas pelo governo de Javier Milei, resultando em um aumento do número de estrangeiros impedidos de entrar ou permanecer no país. A política, em vigor desde dezembro de 2023, tem gerado discussões sobre seus impactos, incluindo a liberdade de expressão.

Um exemplo notável foi o caso de um jornalista brasileiro barrado no Aeroporto Jorge Newbery, em Buenos Aires, por descumprir as regras de seu visto de residência permanente, obtido em 2022. Ele foi proibido de retornar ao país por cinco anos, levantando suspeitas de motivação política. A revogação do visto ocorreu após ataques de perfis de ultradireita em redes sociais.

Em maio de 2025, a Lei de Migrações da Argentina foi alterada por decreto. Uma das mudanças determina que a expulsão do país acarrete a proibição de reingresso por, no mínimo, cinco anos, mesmo sem a ocorrência de um crime. Essa duração é definida conforme a gravidade do motivo que a ensejou.

Segundo a advogada Lucía Galoppo, que atua na área internacional do Centro de Estudos Legais e Sociais (Cels), o governo de Milei aborda a migração com uma perspectiva de segurança e associação ao crime. A transferência da Direção Nacional de Migrações (DNM) do Ministério do Interior para o da Justiça, em novembro de 2025, é vista como um símbolo dessa mudança de abordagem.

Números refletem a nova política

Dados da Comissão Argentina para Refugiados e Migrantes (Caref), com base em informações da DNM, mostram que 15,8 mil estrangeiros foram barrados na entrada do país em 2024. Em 2025, esse número subiu para 16,7 mil. No primeiro semestre de 2026, houve mais de dez mil bloqueios, indicando uma tendência de crescimento.

Os casos classificados como “falsos turistas” representavam 8% do total de impedimentos de entrada em 2023 e saltaram para 41% em 2025. No primeiro semestre de 2026, foram quatro mil ocorrências, correspondendo a 40% dos dez mil barrados no período. A norma que define “falsos turistas” orienta agentes de fronteira a desconfiar de quem possa ter a intenção de permanecer no país, exigindo passagens aéreas, cartões de crédito e comprovante de hospedagem.

As expulsões de estrangeiros que já estavam no país também aumentaram, passando de 475 em 2022 para 920 em 2025. Embora significativos, esses números oficiais são inferiores às declarações de membros do governo que mencionam a expulsão de “30 mil terroristas”. O endurecimento migratório de Milei contrasta com o peso da imigração na população argentina, onde, em 2022, cerca de 1,9 milhão de estrangeiros viviam no país, o equivalente a 4,2% da população.