247 – Cientistas identificaram nas florestas montanhosas da Bolívia uma nova espécie de gato selvagem, a primeira espécie viva de felino formalmente descrita como nova para a ciência em mais de um século. Batizado de Leopardus tilcayo, o animal vive nos Yungas, região de florestas úmidas e montanhosas na encosta oriental dos Andes. As informações são da Reuters.
Conhecido pelas comunidades locais simplesmente como tilcayo, o felino pertence ao grupo dos chamados gatos-tigre, pequenos gatos selvagens encontrados em diferentes regiões da América do Sul.
O animal mede cerca de 46 centímetros de comprimento e pesa aproximadamente 1,4 quilo, sendo menor do que um gato doméstico médio. Sua pelagem é marrom-clara, coberta por rosetas escuras de formatos irregulares.
Uma descoberta inesperada
A pesquisa teve participação de Paola Nogales-Ascarrunz, exploradora da National Geographic e uma das principais autoras do estudo publicado na revista científica Current Biology.
A aparência peculiar dos exemplares bolivianos chamou a atenção porque não correspondia às descrições existentes dos gatos-tigre, muitas delas elaboradas a partir de animais encontrados no Brasil.
A dúvida levou os pesquisadores a uma investigação genética mais profunda. A equipe analisou o DNA de 38 gatos provenientes de vários países sul-americanos, incluindo oito espécimes preservados em museus.
O resultado surpreendeu os cientistas: aquilo que anteriormente era tratado como um grupo muito mais homogêneo é formado por cinco espécies geneticamente distintas.
“Nunca esperávamos que esse gato-tigre boliviano fosse uma espécie separada”, afirmou à Reuters Jonas Lescroart, biólogo evolucionista da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, e um dos líderes do estudo.
Separados há 1,4 milhão de anos
As análises genéticas indicam que a linhagem do Leopardus tilcayo se separou dos demais gatos-tigre há aproximadamente 1,4 milhão de anos.
A genética foi fundamental para solucionar o mistério porque os gatos-tigre são considerados espécies crípticas: animais geneticamente distintos, mas tão semelhantes fisicamente que podem ser extremamente difíceis de diferenciar apenas pela aparência.
O estudo também levou à identificação de uma nova subespécie de gato-tigre nos Yungas peruanos, denominada Leopardus tigrinus antisuyo. O nome faz referência a Antisuyu, região do antigo Império Inca que abrangia parte do território onde o animal vive atualmente.
Um animal ainda cercado de mistérios
Apesar da descoberta, os pesquisadores ainda sabem muito pouco sobre a vida do tilcayo.
A presença de restos de pequenos roedores em amostras de fezes sugere que esses animais façam parte de sua alimentação. Registros obtidos por câmeras instaladas na floresta indicam ainda que o felino pode ter hábitos predominantemente noturnos.
Até aspectos básicos sobre sua reprodução, comportamento, distribuição geográfica e tamanho da população permanecem desconhecidos.
Um dos animais estudados é um macho de cerca de dez anos mantido no Senda Verde Wildlife Sanctuary, nos Yungas. Ele chegou ao local depois de ter sido criado por uma família da região, que inicialmente acreditou tratar-se de um gato doméstico.
Descoberta acende alerta ambiental
A identificação de uma nova espécie também cria uma questão urgente sobre sua conservação.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classificava os gatos-tigre em duas espécies consideradas vulneráveis e com populações em declínio. Os pesquisadores já compartilharam os novos resultados com a entidade, que deverá avaliar separadamente as cinco linhagens identificadas pelo estudo.
Isso significa que o tilcayo poderá apresentar uma situação de conservação diferente daquela anteriormente atribuída ao conjunto dos gatos-tigre.
O problema é particularmente relevante porque seu habitat enfrenta forte pressão humana.
As florestas dos Yungas estão ameaçadas pelo desmatamento, pela expansão das atividades agrícolas, por incêndios provocados pela ação humana e pela mineração. A destruição desse ecossistema pode representar uma ameaça ainda difícil de dimensionar para uma espécie cuja população sequer foi estimada adequadamente.
A descoberta do Leopardus tilcayo revela, assim, um paradoxo da biodiversidade contemporânea: mesmo no século XXI, a ciência continua encontrando espécies de mamíferos até então desconhecidas, enquanto os ambientes dos quais elas dependem desaparecem rapidamente.
O pequeno gato dos Yungas é também um lembrete de que outras espécies podem estar vivendo sem terem sido identificadas pela ciência — e algumas delas correm o risco de desaparecer antes mesmo de serem conhecidas.






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