Por Yan Qiaorong*, Letícia Grubert dos Santos** (Diário do Povo) – No dia 13 de agosto, o campus de Assis da Universidade Estadual Paulista (Unesp) sediou a cerimônia de abertura do primeiro curso de graduação em Língua e Cultura Chinesas da América Latina. O embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, participou da cerimônia e proferiu a aula inaugural aos novos alunos. Por sua vez, Celso Amorim, assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, enviou uma carta de congratulações por ocasião da cerimônia.
Fruto de uma parceria institucional entre a Universidade de Hubei e a Unesp, o novo curso adota duas modalidades de formação: o modelo “2+2”, com dois anos de estudos no Brasil e dois anos na China, e o modelo “4+0”, com quatro anos de formação integral no Brasil. Ao cumprirem todos os requisitos acadêmicos estabelecidos, os estudantes recebem um diploma duplo concedido pelas duas instituições de ensino superior. A criação do curso representa um avanço significativo no desenvolvimento do ensino de chinês no Brasil, marcando a transição para uma fase mais sistemática e consolidada e inaugurando um novo capítulo na trajetória do intercâmbio cultural bilateral.
Segundo dados do site oficial dos Institutos Confúcio e de reportagens da imprensa, nos últimos anos, o interesse pelo aprendizado da língua chinesa vem crescendo de forma constante no Brasil, impulsionando a consolidação gradativa de todo o sistema de ensino de chinês no país. 14 Institutos Confúcio, presentes em 12 estados e no Distrito Federal, desempenham papel fundamental na difusão da língua e cultura chinesas no Brasil. Em 2025, essas instituições registraram cerca de 20 mil alunos matriculados, com mais de 1.100 turmas regulares de ensino. Suas diversas atividades de popularização linguística e cultural beneficiaram mais de 200 mil pessoas em todo o território nacional. Dentre essas unidades, o Instituto Confúcio da Unesp destaca-se por sua longa trajetória: há 18 anos atua no cenário educacional brasileiro, mantém 19 polos de ensino distribuídos em três estados e acumula mais de 41 mil alunos registrados ao longo de sua história. A evolução do ensino de chinês, que saiu de formações voltadas apenas para o interesse pessoal para a implantação de cursos de graduação, preencheu uma importante lacuna na formação de profissionais de nível superior, tornando o Brasil uma referência para o desenvolvimento do ensino especializado de chinês na América Latina.
O intercâmbio entre os países baseia-se na reciprocidade. Enquanto o Brasil registra um crescente entusiasmo pelo aprendizado da língua chinesa, a China também avança na formação de estudantes de língua portuguesa. O primeiro curso de graduação em língua portuguesa do país foi criado, em 1960, no Instituto de Radiodifusão da China, atual Universidade de Comunicação da China. Trata-se de um modelo de desenvolvimento que tem no ensino superior o seu principal pilar, ao lado de experiências exploratórias que vêm sendo desenvolvidas na educação básica.
Segundo estatísticas anuais compiladas pelo grupo de coordenadores dos cursos de português da China, em 2026, 52 instituições de ensino superior chinesas oferecem disciplinas de língua portuguesa, abrangendo formação acadêmica formal, disciplinas optativas gerais e componentes curriculares complementares. Desse total, 48 instituições ofertam cursos de graduação (43 oferecem cursos de 4 anos e 5 disponibilizam cursos de 3 anos). No nível de pós-graduação, 10 universidades mantêm programas de mestrado em português, enquanto 5 instituições desenvolvem formações de doutorado. Esses programas de mestrado e doutorado são voltados para áreas como linguística, literatura, tradução e estudos sobre os países de língua portuguesa. Além do ensino superior, a educação básica chinesa também desenvolve práticas de ensino de português, por exemplo, em Shanghai, há 5 escolas que integram a língua portuguesa em suas grades curriculares. Essa estrutura educacional multinível forma continuamente profissionais qualificados e multidisciplinares, que atuam como elo fundamental para a cooperação econômico-comercial, os intercâmbios acadêmicos e a difusão cultural entre a China e os países de língua portuguesa.
O intercâmbio linguístico-cultural constitui a base da compreensão mútua entre os povos e o alicerce de toda a cooperação prática bilateral. A China mantém-se, há anos, como o maior parceiro comercial do Brasil, e a parceria bilateral avança de forma cada vez mais profunda e sólida nos setores de agricultura, energias renováveis, infraestrutura e inovação tecnológica. O aprofundamento das relações econômicas e comerciais depende essencialmente de profissionais bilíngues, capazes de dominar as duas línguas e compreender as particularidades culturais de ambos os países. A implantação do primeiro curso de graduação conjunto de língua chinesa da América Latina representa um importante avanço para enfrentar a escassez de profissionais de alta qualificação em língua chinesa no Brasil, contribuindo para a formação sistemática de profissionais alinhados às demandas da cooperação sino-brasileira. Paralelamente, o sistema consolidado de ensino de português na China continua formando jovens talentos qualificados, que conhecem profundamente a realidade e a cultura brasileira. Esse modelo de intercâmbio e formação bilateral de profissionais fortalece os vínculos entre os dois países e contribui para a construção de uma ponte sólida para a cooperação sino-brasileira em diferentes áreas.
Embora separados por oceanos, a China e o Brasil compartilham aspirações de parceria e desenvolvimento conjunto. O crescente interesse de brasileiros pelo chinês e de chineses pelo português representa uma das manifestações mais vivas e concretas do intercâmbio e da integração entre suas civilizações. Com base em um sistema cada vez mais maduro de formação de talentos bilíngues, os dois países conseguem superar barreiras de comunicação, estreitar os laços entre seus povos e consolidar uma amizade que se perpetua. E essa amizade, transmitida de geração em geração, renova-se e infunde dinamismo perene a todos os setores da parceria bilateral.
*Yan Qiaorong é diretora do Centro de Estudos em Comunicação China-Brasil e professora associada da Faculdade de Comunicações Internacionais da Universidade de Comunicação da China
**Letícia Grubert dos Santos é diretora brasileira do Instituto Confúcio na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professora adjunta de Português como Língua Adicional na UFRGS, atuando também como coordenadora do Programa de Português para Estrangeiros do Instituto de Letras da Universidade.






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