A disputa política em torno de Nossa Senhora Aparecida mobilizou direita e esquerda nas redes sociais evangélicas, com o campo progressista levando vantagem na guerra de narrativas. A conclusão é de Andréa Laís, doutora em ciências sociais e pesquisadora na Casa Galileia, organização que acompanha publicações sobre religião e política no ecossistema evangélico.

O monitoramento das narrativas é feito através do relatório quinzenal Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral, desenvolvido em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. O levantamento mais recente analisou publicações entre 14 e 27 de setembro em 469 perfis digitais vinculados ao tema. Segundo Laís, foi a primeira vez que a extrema-direita foi pautada e precisou responder a narrativas propostas pela esquerda.

A controvérsia começou com uma fake news que circulou nas redes: a de que se eleito, Flávio Bolsonaro removeria Aparecida do posto de padroeira nacional. O projeto de lei mencionado havia sido arquivado em 2008 e apresentado um ano antes pelo deputado-pastor Victório Galli. A narrativa ganhou força após declaração do candidato em agosto em que afirmou que iria "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo" caso eleito.

Para conter o estrago, apoiadores de Flávio desmentiraram a acusação, mencionando a fake news e atacando a imprensa. Uma postagem em que ele nega a intenção de retirar o título de padroeira alcançou 857,5 mil interações. Portais evangélicos e líderes como o deputado Sóstenes Cavalcante repercutiram o desmentido e a retratação da GloboNews, que havia veiculado comentário sobre setores católicos preocupados com evangélicos mobilizados sobre o assunto.

Resposta organizada da liderança evangélica

Lideranças evangélicas de peso assinaram carta aberta do Cimeb (Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil), incluindo Silas Malafaia, Cláudio Duarte, Teo Hayashi e Robson Rodovalho. A nota acusa Lula e apoiadores de espalhar informações falsas para atingir adversário político e promover uma guerra religiosa entre católicos e evangélicos.

Na esquerda, perfis como Evangélicos com Lula repudiaram a instrumentalização da fé na política e apelaram pela união entre católicos e evangélicos. O deputado André Janones fez vídeo lembrando o papel histórico da Igreja Católica na fundação do PT e citando o episódio de 1995 quando um bispo da Igreja Universal deu pontapés numa estátua de Aparecida.