247 – As investigações sobre o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro entraram em definitivo na campanha eleitoral da Bahia, consolidando um novo e duro campo de batalha na disputa entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) pelo comando do governo estadual, relata a Folha de São Paulo.

O escândalo colocou sob intensa pressão os dois principais grupos políticos que polarizam a eleição baiana. De um lado, cobranças e questionamentos são direcionados a ACM Neto sobre sua relação com o banco. De outro, o governador é cobrado a se posicionar sobre as apurações da Polícia Federal que envolvem o senador Jaques Wagner (PT) e seu enteado, Eduardo Sodré, atual secretário estadual do Meio Ambiente.

A trégua que marcou o início da campanha — período em que ambos os lados evitavam utilizar a crise do Master para atacar os adversários — ficou para trás nas últimas semanas. O PT iniciou uma ofensiva ao repercutir uma proposta de delação premiada de Vorcaro na qual o ex-prefeito de Salvador era citado.

Segundo reportagem do portal UOL, o ex-banqueiro afirmou que ACM Neto e Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, teriam atuado em favor do Banco Master junto a institutos de previdência estaduais em troca de 10% dos valores investidos na instituição financeira. A proposta de delação premiada foi rejeitada tanto pela Polícia Federal quanto pela Procuradoria-Geral da República.

O teor do relato passou a ser explorado nas falas públicas de Jerônimo Rodrigues, que passou a afirmar que o adversário deve explicações à sociedade e a insinuar que, caso seja eleito, o ex-prefeito poderia cobrar vantagens indevidas de fornecedores do estado.

Em entrevista concedida à TV Bahia, o governador criticou duramente uma das principais propostas de campanha de ACM Neto, batizada de “Pix Saúde”, que promete comprar vagas na rede privada de saúde para atendimentos urgentes quando houver indisponibilidade na rede pública. “Eu não sei se ele vai usar o mesmo que está denunciado, que ele cobrava 10% do recurso colocado. Eu não sei se o Pix é para isso, ele cobrar alguma taxa de 10% ou equivalente na rede particular de saúde”, afirmou Jerônimo.

ACM Neto reagiu imediatamente às acusações, anunciando que processaria o governador por calúnia. Dias antes, o candidato da oposição já havia classificado a divulgação do conteúdo da minuta de delação como um “vazamento seletivo” e uma ação calculada para impactá-lo às vésperas do pleito.

Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram que uma empresa vinculada a ACM Neto recebeu R$ 3,6 milhões provenientes do Banco Master e da gestora Reag. Em sua defesa, o ex-prefeito declarou ter prestado serviços de consultoria privada e que todos os valores recebidos são lícitos e devidamente declarados às autoridades fiscais.

O ex-prefeito soteropolitano também entrou no radar das apurações da Operação Overclean. A Polícia Federal chegou a solicitar autorização para cumprir mandados de busca e apreensão contra ACM Neto na nova fase da operação deflagrada na quinta-feira (17), mas o pedido foi negado pelo relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Kassio Nunes Marques. Desde então, lideranças do PT têm pressionado o adversário a abrir voluntariamente seus sigilos bancário e fiscal.

Nesta semana, o confronto entre os grupos ultrapassou o discurso político e chegou formalmente ao Poder Judiciário. Na quarta-feira (16), a coligação formada por PT, PCdoB e PV protocolou uma petição no STF requerendo a derrubada do sigilo e o acesso público na íntegra aos autos dos processos que envolvem o ex-prefeito. A peça jurídica também pede que se investigue se houve atuação parcial do ministro André Mendonça em favor do grupo de ACM Neto, alegando que a conduta representaria uma interferência indevida no processo eleitoral.

A resposta do grupo liderado pelo União Brasil veio no dia seguinte. Na quinta-feira (17), União Brasil e Progressistas (PP) apresentaram uma representação à Procuradoria-Geral da República sugerindo o afastamento imediato de Eduardo Sodré do cargo de secretário de Meio Ambiente da Bahia. “Ele está sob investigação em função de uma grave denúncia, que é incompatível com o exercício da função de secretário”, declarou o deputado federal Arthur Maia (União Brasil), presidente da federação União Progressista na Bahia.

Maia acusou o governador de promover um escrutínio seletivo ao exigir explicações da oposição enquanto se omite em relação aos aliados. Ele citou ainda outros contratos do governo baiano sob apuração, como os da Superintendência de Fomento ao Turismo do Estado da Bahia (Sufotur).

Ao contrário do presidente Lula (PT), que optou por afastar Jaques Wagner da liderança do governo no Senado, Jerônimo Rodrigues decidiu manter o enteado do senador na titularidade da secretaria estadual, apesar das medidas impostas pela Polícia Federal. “Ele foi citado, não tem nada que o impeça de praticar sua profissão. Portanto, eu estou ainda na agenda da ética”, respondeu Jerônimo ao ser questionado sobre a permanência de Sodré.

As investigações da Polícia Federal identificaram um repasse de R$ 3,5 milhões da empresa PLK One Participações — vinculada às operações do cartão Credcesta — para uma microempresa pertencente a Bonnie Bonilha, esposa de Eduardo Sodré. A pagadora pertence ao empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.

Atualmente, o secretário de Meio Ambiente cumpre medidas cautelares determinadas pela Justiça, que incluem a proibição de manter contato com outros investigados, o afastamento da gestão das empresas envolvidas nas apurações e a retenção de seu passaporte, o que o impede de se ausentar do país. Desde que se tornou alvo da Operação Compliance Zero, em junho, Sodré reduziu drasticamente suas agendas públicas e ainda não se pronunciou publicamente sobre as acusações.

Enquanto isso, o senador Jaques Wagner, que concorre à reeleição, mantém sua rotina de campanha ao lado de Jerônimo Rodrigues e reitera que provará sua inocência na Justiça. A Polícia Federal investiga se o parlamentar recebeu pagamentos do Banco Master por meio da empresa de sua nora, além de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões.

A disputa pelo governo baiano ocorre em cenário de acirramento e empate técnico: ACM Neto lidera com 39% das intenções de voto, seguido de perto por Jerônimo Rodrigues com 37%, conforme dados da pesquisa Quaest divulgada em 27 de agosto.