Apesar de a poliomielite ter sido erradicada no Brasil há mais de três décadas, suas sequelas ainda afetam milhares de pessoas, como o casal Célia Henrique, de 54 anos, e Luiz Fernando Zeni, de 69 anos. Ambos convivem com a doença desde os primeiros meses de vida, vivenciando os impactos em sua juventude e enfrentando novos desafios na fase adulta, incluindo a Síndrome Pós-Poliomielite.
Ausência de vacina e os primeiros diagnósticos
No final dos anos 1950, a vacina contra o poliovírus ainda não era acessível no Brasil, e Luiz Fernando foi diagnosticado com pólio aos cinco meses, após uma prima não resistir à doença. Sua mãe o levou a São Paulo, onde a poliomielite foi confirmada. Para Célia, nascida em São João do Ivaí, no Norte do Paraná, a vacina já existia no país, mas o acesso era limitado no interior. Também aos cinco meses, após uma febre intensa, ela foi levada a São Paulo, onde recebeu o diagnóstico correto e sua família se mudou para Curitiba em busca de recursos adequados. Luiz Fernando teve mais de 20 cirurgias para tratar as sequelas, principalmente nos membros inferiores, enquanto Célia passou por mais de dez procedimentos, um deles para corrigir a posição do pé.
Superando barreiras e encontrando o amor
Desde os quatro anos, Luiz Fernando frequentava a Associação Paranaense de Reabilitação (APR), onde desenvolveu força nos braços e utilizava aparelhos ortopédicos. Ele lembra de sua mãe o incentivando: “Se você cair, tente se levantar”. Célia também frequentou a APR para fisioterapia e outros tratamentos. A transição para escolas comuns foi um desafio para ambos, que enfrentaram o preconceito e a falta de compreensão. Aos 18 anos, Luiz Fernando não tinha tido experiências comuns da juventude e enfrentava perguntas insensíveis sobre sua condição. Célia, aos 20 anos, buscou autonomia trabalhando. Eles se conheceram no início dos anos 2000, através de uma amiga, e Célia sentiu uma conexão instantânea. Após 13 anos de casamento e quase 30 anos juntos, o casal demonstra que a doença não é uma sentença.
Novos desafios e a importância da vacinação
Atualmente, Célia e Luiz Fernando lidam com a Síndrome Pós-Poliomielite (SPP), uma desordem neurológica que causa fraqueza muscular e a perda de funções antes recuperadas. Luiz Fernando descreve a sensação como estar “em fase de desmontagem”, perdendo a força e os movimentos adquiridos ao longo da vida. Diante desse cenário, o casal ressalta a importância da vacinação contra a poliomielite, que no Brasil tem apresentado taxas de cobertura abaixo da meta de 95%. Eles enfatizam que a vacinação é uma questão coletiva, não apenas individual. Além disso, destacam a necessidade de melhorias no planejamento urbano para garantir a acessibilidade e o direito de ir e vir, criticando a falta de estrutura das cidades. As múltiplas cirurgias ao longo da vida de Luiz Fernando resultaram na perda de meses significativos, impactando sua educação e vida social. Apesar dos desafios, com uma forte rede de apoio e uma casa adaptada às suas necessidades, o casal atribui a durabilidade de sua união ao amor e à união entre pessoas com deficiência.






Comentários
Seja o primeiro a comentar.