247 – O assessor-especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim, deu início nesta segunda-feira (14) às agendas de trabalho na Índia e na China. O primeiro compromisso foi em Nova Déli, uma palestra no Observer Research Foundation (ORF), um dos principais think tanks de política externa da Índia.
Segundo Amorim, Brasil e Índia são duas grandes nações com propósitos maiores. O assessor especial destacou a convergência entre os dois países na busca por maior protagonismo na definição da ordem internacional e na defesa de melhores condições de vida, combate à pobreza e à fome e desenvolvimento para suas populações. Amorim ressaltou que a parceria bilateral deve se apoiar em cinco pilares — defesa e segurança; segurança alimentar e nutricional; transição energética e mudanças climáticas; transformação digital e tecnologias emergentes; e parcerias industriais, incluindo saúde — tendo a diversificação das relações internacionais como princípio transversal. Segundo o assessor especial, ampliar as opções de parceria e fortalecer a resiliência é essencial para a construção de um sistema internacional mais equilibrado.
Amorim também defendeu uma atuação conjunta de Brasil e Índia diante das transformações da ordem global, marcada, em sua avaliação, pela pressão sobre princípios multilaterais e pela normalização do uso da força. Ao abordar defesa, Inteligência Artificial (IA), minerais críticos e estratégicos e a reorganização do sistema internacional, o assessor especial destacou a importância da soberania, da autonomia estratégica e da multipolaridade, sem que esta seja confundida com novas esferas de influência. Para Amorim, Brasil e Índia devem participar ativamente da definição das regras da próxima ordem mundial, com maior representação do Sul Global, ao mesmo tempo em que aprofundam a cooperação tecnológica e industrial. Nesse contexto, Amorim afirmou que o sistema multilateral como era conhecido não voltará e que a renegociação das normas internacionais será inevitável, tornando essencial a presença coordenada dos dois países na construção de um mundo mais equilibrado.
Amorim destacou a trajetória do BRICS e do IBAS, ressaltando que o BRICS nasceu do espírito de cooperação que aproximou Brasil, Índia e África do Sul. Para o assessor especial, permanece fundamental ao Sul Global buscar objetivos comuns, especialmente a paz, o desenvolvimento e a construção de uma ordem internacional mais equitativa.
Leia na íntegra o discurso de Celso Amorim sobre as relações entre Brasil e Índia, a defesa da soberania, a inteligência artificial, a transição energética e os desafios para a construção de uma nova ordem internacional com maior participação do Sul Global:
Agradeço o convite para falar na Observer Research Foundation, uma instituição prestigiosa que tem feito muito para levar as perspectivas da Índia e do Sul Global aos grandes debates de nosso tempo.
Durante a visita de Estado do primeiro-ministro Modi ao Brasil, em 2025, adotamos uma Declaração Conjunta com um título de que gosto particularmente: “Duas grandes nações com propósitos maiores”.
Brasil e Índia são, de fato, duas grandes nações.
Existe um pequeno grupo de países que estão entre os dez maiores do mundo em população, território e tamanho econômico. Se colocássemos essas três dimensões em um diagrama de Venn, apenas cinco países estariam na interseção: Estados Unidos, China, Rússia, Índia e Brasil.
Certa vez, um amigo indiano me disse que invejava a densidade populacional do Brasil: gente suficiente, mas ainda muito espaço.
O contraste com a Índia é impressionante. A Índia tem quase sete vezes a população do Brasil, em pouco mais de um terço do território brasileiro.
Brasil e Índia também são democracias multiétnicas orgulhosas, com economias vibrantes e cada vez mais sofisticadas.
Mas nossos países também têm propósitos maiores.
Queremos padrões de vida mais elevados para nossa população. Estamos determinados a combater a pobreza e a fome e a garantir que o desenvolvimento alcance todos os segmentos de nossas sociedades.
Mas “propósitos maiores” também diz respeito às nossas aspirações no cenário internacional. Tanto o Brasil quanto a Índia buscam desempenhar um papel maior na definição da ordem internacional. Compartilhamos um forte sentimento de dignidade nacional e a convicção de que nossas vozes devem ser ouvidas.
É por isso que os cinco pilares prioritários que identificamos são particularmente oportunos:
Primeiro, Defesa e Segurança.
Segundo, Segurança Alimentar e Nutricional.
Terceiro, Transição Energética e Mudanças Climáticas.
Quarto, Transformação Digital e Tecnologias Emergentes.
E quinto, Parcerias Industriais, incluindo a área da saúde.
Essas prioridades são especialmente relevantes no atual contexto geopolítico.
E há um princípio mais amplo que, acredito, atravessa os cinco pilares: diversificação.
No Brasil, temos trabalhado intensamente para diversificar nossas relações, e vemos a Índia como um parceiro essencial nesse esforço.
Não queremos ser obrigados a estabelecer parcerias exclusivas. Queremos ampliar nossas opções e fortalecer nossa resiliência. Isso é fundamental para construir um sistema internacional mais equilibrado.
Vivemos um momento em que muitos dos paradigmas da ordem internacional estão sendo desafiados simultaneamente. Princípios e conquistas que antes considerávamos sólidos e amplamente aceitos estão agora sob pressão.
O sintoma mais grave dessa ruptura é a normalização do uso da força.
O conflito genocida que continuamos a testemunhar em Gaza choca a consciência da humanidade. Ao mesmo tempo, os impactos econômicos das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio nos lembram que não estamos imunes aos efeitos dos conflitos, mesmo quando eles ocorrem a milhares de quilômetros de distância.
Em nossa própria região, a América Latina e o Caribe, um presidente em exercício foi sequestrado e levado para a prisão por uma superpotência.
Se não agirmos pela paz, poderá chegar um momento em que esses conflitos inevitavelmente transbordem e se tornem interconectados.
Como observou o papa Leão XIV, já estamos vivendo uma “guerra mundial aos pedaços”. Em minhas próprias palavras, descrevi humildemente essa situação como um mundo em carne viva.
Em um mundo sem regras, cada país está considerando a melhor maneira de proteger sua soberania.
No Brasil, pode-se dizer que está surgindo um novo consenso social em torno da importância de aumentar os investimentos em defesa. Não há dúvida de que o setor de defesa está passando por uma revolução tecnológica.
Nessa área, a cooperação com a Índia é particularmente promissora.
Esse foi um tema central de minhas conversas, nos últimos anos, com o assessor de Segurança Nacional da Índia, Ajit Doval.
Nossa cooperação nessa área não é nova. Em 2012, quando visitei a Índia como ministro da Defesa, fiquei muito satisfeito ao ver uma aeronave brasileira como base para um sistema de radar indiano (o Embraer 145 e o sistema AEW&C que ficou conhecido como Netra).
Estamos plenamente conscientes dos efeitos positivos de transbordamento da indústria de defesa, particularmente em termos de empregos de qualidade, desenvolvimento tecnológico e crescimento industrial. No Brasil, a Embraer é um dos exemplos mais conhecidos. Atualmente, a empresa está ampliando fortemente sua presença no mercado indiano por meio de importantes parcerias locais.
Esse tipo de cooperação é plenamente compatível com a visão indiana de “Make in India”.
Também podemos recordar as palavras de outro papa, Paulo VI, que disse em 1967 que “desenvolvimento é o novo nome da paz”.
Isso ocorreu por volta da época em que era realizada aqui a segunda UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), em Nova Déli.
Sem desenvolvimento, e sem superar as desigualdades dentro dos países e entre eles, é impossível falar em paz.
Mas também vimos que, sem paz, nenhuma política de desenvolvimento pode ser eficaz. Hoje, podemos dizer que o oposto da formulação de Paulo VI também é verdadeiro: a paz é o novo nome do desenvolvimento.
No caso do Brasil e da Índia, nossas populações grandes e diversificadas, a escala de nossos mercados e nossa crescente conectividade geram enormes quantidades de dados, que são essenciais para a nova economia digital. Hoje, a posse de dados é uma importante fonte de poder.
O presidente Lula participou da Cúpula de Impacto da IA da Índia em fevereiro passado, uma excelente iniciativa do primeiro-ministro Modi.
Brasil e Índia têm muitas posições convergentes sobre inteligência artificial.
Compartilhamos o compromisso com a inclusão digital, a redução das assimetrias tecnológicas, o fortalecimento das capacidades nacionais e a ampliação da participação dos países em desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, Brasil e Índia fizeram escolhas diferentes em relação à governança da IA.
A Índia decidiu participar da iniciativa Pax Silica, liderada pelos Estados Unidos, aproximando-se de uma arquitetura tecnológica sob liderança americana.
O Brasil, por outro lado, participou ativamente das negociações para estabelecer a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial — WAICO, criada em Xangai.
No Brasil, acreditamos, por exemplo, que plataformas de inteligência artificial de código aberto podem reduzir os riscos de criação de novas dependências.
Independentemente do caminho que escolhermos, é essencial que a cooperação internacional em inteligência artificial seja orientada pela ética, pelo respeito à soberania e, acima de tudo, por uma abordagem humanista, que também pressupõe cuidado com o meio ambiente.
Essa visão orienta nossa busca por cooperação em diversas áreas.
As reservas brasileiras de minerais críticos e estratégicos, incluindo terras raras, nos dão uma oportunidade de promover o desenvolvimento autônomo de tecnologias de ponta. Mas não basta explorar esses recursos. Precisamos utilizá-los para avançar em um processo de industrialização compatível com as exigências de nosso tempo.
Em resumo, precisamos passar do minério bruto à bateria — e resistir à ganância internacional.
Brasil e Índia estão em posição de participar desse momento histórico não apenas como observadores, mas como participantes ativos.
Um dos principais desafios para o Sul Global hoje é garantir que a inteligência artificial não se transforme em um instrumento de dominação e discriminação entre países.
Do nosso ponto de vista, não há dúvida de que a multipolaridade é preferível à unipolaridade ou mesmo à bipolaridade. Multipolaridade, porém, não deve ser confundida com uma nova divisão do mundo em esferas de influência. Para evitar esse risco, é essencial reconstruir um mundo governado por regras acordadas multilateralmente. Para isso, precisamos reconhecer que o multilateralismo continua sendo uma promessa que ainda não foi plenamente cumprida.
A principal tarefa da política externa brasileira hoje é garantir uma posição independente e soberana para o Brasil no novo equilíbrio global. Acredito que essa postura esteja totalmente alinhada ao conceito indiano de autonomia estratégica.
A atuação internacional do Brasil envolve necessariamente a integração regional com a América Latina, especialmente com a América do Sul. Rejeitamos categoricamente a ideia de que a América Latina possa ser tratada como uma área de dominação por qualquer superpotência.
O cientista político Karl Deutsch desenvolveu o conceito de “comunidade de segurança”, segundo o qual existem grupos de países cuja integração é tão profunda que uma guerra entre eles se torna impensável. Hoje, algumas dessas “comunidades” estão sendo colocadas em questão. Por um lado, essa situação pode gerar uma sensação de instabilidade. Por outro, incentiva os países a se abrirem a novas parcerias.
Poucos poderiam ter antecipado, por exemplo, o grau de convergência que vemos hoje entre Brasil e Canadá.
O reconhecimento da importância de reequilibrar as relações comerciais também foi relevante para a conclusão das negociações entre o MERCOSUL e a União Europeia, iniciadas trinta anos antes.
O sistema multilateral como o conhecíamos não voltará.
Precisamos reconhecer que uma renegociação das normas internacionais será inevitável. Nesse contexto, é essencial garantir que Brasil e Índia estejam presentes e atuantes juntos quando forem definidas as regras da próxima ordem mundial, na qual o Sul Global esteja representado.
O fato de Brasil e Índia terem sediado as cúpulas do G20 e do BRICS nos últimos anos nos dá uma dimensão da importância e do peso de nossos dois países.
A Índia foi bem-sucedida ao conduzir sua presidência do BRICS em um momento difícil. Precisamos reconhecer que a expansão do BRICS criou novos desafios.
Mas acredito que, no balanço geral, a inclusão de novas perspectivas, como as trazidas pelos países africanos, foi positiva. A inclusão de outros países latino-americanos poderia ter o mesmo efeito, embora eu não veja isso acontecendo no atual contexto político.
Como muitos de vocês provavelmente sabem, o BRICS é fruto do IBAS, uma iniciativa que reuniu Índia, Brasil e África do Sul. Como amigos próximos e parceiros da África do Sul, lamentamos profundamente que o país não tenha sido convidado para as reuniões do G20.
Esse é um exemplo da necessidade de os países do Sul Global deixarem as diferenças de lado e continuarem trabalhando por nossos objetivos comuns.
O mesmo espírito que nos motivou a criar o IBAS e o BRICS há duas décadas continua a nos orientar hoje: a construção da paz e do desenvolvimento em um mundo mais equitativo.
Em um diálogo virtual com o grande pensador Noam Chomsky, propus uma ideia que passei a chamar de “teoria das frestas (ou das fissuras)”.
Quando estamos em uma sala escura, muitas vezes tudo o que conseguimos enxergar é uma pequena fresta por onde entra luz. Precisamos procurar essa abertura e trabalhar para ampliá-la.
Essa é a atitude que acredito que devemos adotar diante dos desafios atuais: nunca desistir e sempre procurar os raios de luz.
Muito obrigado.






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