Recentemente, bombardeios americanos no Irã, incluindo um ataque à ponte entre Bandar Abbas e Shiraz, trouxeram à tona a realidade brutal da guerra para a população civil. Uma correspondente, ao cobrir o conflito por 14 dias, relatou como as notícias sobre mísseis e disputas geopolíticas no Ocidente contrastam com o sofrimento das pessoas comuns, como mães, crianças e trabalhadores, no país.

Devastação em Lamerd e Minab

Na cidade de Lamerd, a correspondente presenciou os efeitos do que chamou de “dano colateral”. Mísseis americanos, supostamente de fragmentação — tipo proibido pela Convenção sobre Munições Cluster de 2008 —, explodiram a metros do chão, deixando milhares de marcas nas paredes das casas e causando um rastro de dor. A cidade, com 35 mil habitantes e economia focada na pesca e petroquímica, não possuía instalações militares conhecidas. Uma mulher entrevistada carregava fragmentos metálicos no corpo, enquanto outra perdeu a filha de dois anos por um fragmento que a atingiu nas costas. Em Minab, uma escola foi atingida no primeiro dia da guerra, resultando na morte de 160 pessoas, incluindo 73 meninos, 47 meninas e 26 professores. Contudo, a rota para a cidade foi desviada devido a novos bombardeios na região.

Evacuação de hospital infantil em Ahvaz

A situação se agravou com notícias de Ahvaz, onde bombardeios próximos ao Hospital Shahid Baqaei, especializado em tratamento de câncer infantil, forçaram a evacuação de mais de duzentos pacientes pediátricos. O governo iraniano classificou o incidente como crime de guerra, enquanto os Estados Unidos afirmam ter mirado em instalações militares. Este episódio, somado aos anteriores, levanta sérias dúvidas sobre a observância do Direito Internacional Humanitário.

Violações do Direito Internacional Humanitário

As Convenções de Genebra e seus Protocolos Adicionais exigem a distinção entre alvos militares e população civil, protegendo escolas, hospitais, pontes e bairros residenciais. Além disso, o princípio da proporcionalidade proíbe ataques cujos danos civis sejam excessivos em relação à vantagem militar. A violação desses princípios pode configurar crimes de guerra. No entanto, Estados Unidos e Israel não são signatários de acordos que reconhecem a jurisdição de órgãos internacionais competentes para julgar tais casos.

A experiência no Irã levou a correspondente a questionar a percepção ocidental sobre o país e o conflito. Ela encontrou uma sociedade acolhedora, mas profundamente marcada pela guerra e pelo sofrimento civil, que raramente ganha destaque internacional. A jornalista ressalta a necessidade de a comunidade internacional abandonar a dupla moral ao julgar conflitos armados, buscando responsabilidade para aqueles que autorizam e executam operações que resultam na destruição de escolas, evacuação de hospitais infantis e na devastação de vidas.

A definição de terrorismo também é posta em xeque, sugerindo que se o medo deliberado, a destruição de infraestrutura e a morte de crianças são tolerados em nome de objetivos estratégicos, a palavra deve deixar de ser um instrumento seletivo e voltar a significar o uso da violência contra civis como instrumento de poder. Essa questão, segundo a jornalista, deve ser direcionada aos centros de poder em Washington, onde decisões impactam a vida de milhares de pessoas.