247 – O escritor e candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante), que avançou para a terceira colocação nas pesquisas de intenção de voto, não incluiu na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral uma série de empresas registradas nos Estados Unidos e no Brasil. Embora tenha informado ao TSE um patrimônio de R$ 242,3 milhões — o maior entre os presidenciáveis —, ao menos três negócios na Flórida e duas empresas brasileiras ficaram fora da relação oficial.
As informações foram reveladas pela Folha de São Paulo, que identificou registros empresariais em nome de Cury na Divisão de Corporações da Secretaria de Estado da Flórida, órgão equivalente à Junta Comercial local. Procurada, a equipe do candidato afirmou que o patrimônio do escritor foi “construído de forma lícita” e disse que eventuais inconsistências serão corrigidas.
Augusto Cury possui cinco registros empresariais na Flórida. Duas empresas aparecem na declaração entregue ao TSE: a Intelligence School, constituída em 2014, e a Love Story Josefina, aberta em 2017 e renomeada Love Story Investments em 2021. Outras três companhias — Cury Academia Comportamental, Contemplare Investments e Free Mind Publish, abertas entre 2021 e 2024 — não foram informadas à Justiça Eleitoral, apesar de terem recolhido as taxas necessárias para permanecerem ativas em 2026.
Nos registros da Flórida, Cury aparece como membro autorizado nas três empresas omitidas. Em uma delas, é o único nome listado nessa condição. Os documentos, no entanto, não detalham o percentual de participação societária nem o capital investido por cada pessoa autorizada a atuar pelas companhias.
A Intelligence School, uma das empresas declaradas ao TSE, comprou e vendeu ao menos quatro imóveis em Orlando entre 2014 e 2024. As transações somam US$ 13,5 milhões, de acordo com escrituras registradas no cartório do condado de Orange, na Flórida.
No Brasil, também ficou fora da declaração a Contemplare, empresa registrada em Dumont, no interior de São Paulo, em 2022, e transferida para Ribeirão Preto em julho deste ano. A companhia tem como objeto social a locação de imóveis próprios, aluguel e arrendamento de terras próprias para exploração agrícola e administração de imóveis próprios.
Outra empresa brasileira não informada é a Academia de Pensar e Brincar, da qual Cury é sócio-administrador ao lado da mulher e de duas filhas. A companhia atua no ramo de atividades de recreação e tem capital social de R$ 12 mil.
Entre os bens declarados, Cury informou possuir R$ 25,8 milhões em BDRs, certificados negociados na B3 com lastro em ações de empresas estrangeiras. O candidato também declarou R$ 31,5 milhões como “sócio participante” da Fictor Invest. O mesmo valor aparece em nome dele na relação inicial de credores da recuperação judicial do grupo Fictor, segundo documento repassado por sua equipe à Folha.
Na lista de credores da Fictor, o crédito de Cury é classificado como quirografário, ou seja, sem garantias, e descrito como decorrente da rescisão de contratos de sociedade em conta de participação. A mulher do candidato, Suleima Cabrera Farhate Cury, também consta da relação, com R$ 1,3 milhão. Os créditos sujeitos ao processo somam R$ 4,26 bilhões, dos quais R$ 4,19 bilhões estão na mesma classe em que o escritor aparece.
A Fictor pediu recuperação judicial neste ano e esteve envolvida, em 2025, em uma tentativa de compra do Banco Master antes da liquidação decretada pelo Banco Central.
O maior bem informado por Augusto Cury ao TSE é um mútuo, isto é, um empréstimo a receber, da Filadélfia Nature, empresa da qual ele detém 99,97%. A mulher e as três filhas aparecem como sócias minoritárias. O valor declarado é de R$ 121 milhões, mas os registros não indicam data nem condições de pagamento.
A Filadélfia Nature mantém seis filiais em fazendas localizadas em São Paulo, Minas Gerais e Piauí. As atividades declaradas incluem cultivo de soja, milho, cana e eucalipto, além de criação de gado. Três fazendas em Prata (MG) — Tamboril e Sobradinho, Pernambuco e Serra Branca — foram transferidas por Cury à empresa em ato registrado em janeiro deste ano, pelo valor de R$ 3 milhões.
Na declaração ao TSE, o candidato incluiu 19 itens rurais, que somam R$ 6,7 milhões. Nenhum deles informa município, área ou número de matrícula, prática comum em declarações eleitorais. Seis itens repetem nomes, como Fazenda Serra Branca, Fazenda Pernambuco e Fazenda Sobradinho. Cinco carregam os nomes das três propriedades transferidas à Filadélfia Nature. Como a declaração não apresenta matrícula, não é possível saber se os bens são os mesmos imóveis, glebas distintas ou áreas vinculadas a registros separados.
Uma consulta ao Operador Nacional do Registro pelo CPF do escritor localizou 50 matrículas em Prata, com numerações sequenciais, padrão típico de desmembramento de área.
Um integrante da equipe de Cury afirmou à Folha que o grupo do candidato fará uma análise da declaração de bens. Segundo essa avaliação, no caso das propriedades rurais, haveria a possibilidade de fazendas com o mesmo nome corresponderem a lotes registrados separadamente, parte em nome do escritor e parte em nome de suas empresas. Essa explicação, porém, não apareceu de forma explícita na nota oficial enviada pela equipe.
“O candidato declarou à Justiça Eleitoral bens no valor de R$ 242,2 milhões. São investimentos em múltiplas empresas e em diversos setores, formando patrimônio construído de forma lícita, mediante consulta a notáveis economistas e gestores”, diz a nota.
“Caso seja identificada inconsistência pontual no lançamento das informações patrimoniais, serão adotadas as providências cabíveis para correção, na forma da lei”, concluiu a equipe de Cury, sem detalhar quais pontos da declaração poderão ser revisados.






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