O Hamas deu sinal verde à versão final de um roteiro para a concretização da segunda fase do acordo de cessar-fogo em Gaza. A decisão, que ocorreu após mais de dois anos e meio de conflito, representa um avanço nas negociações. Contudo, especialistas ressaltam que o sucesso do acordo depende da sua efetivação, e obstáculos à paz na Faixa de Gaza ainda são significativos, com divergências substanciais entre Israel e o Hamas em pontos como armamentos, a retirada das tropas israelenses e a futura administração do território.
A segunda fase do plano, conforme divulgado por veículos de imprensa palestinos, abrange arranjos políticos, de segurança e administrativos. Entre os pontos principais estão a transição da administração de Gaza para um comitê nacional palestino, a reestruturação das instituições civis e de segurança, a retirada gradual das forças israelenses e o início de um programa de reconstrução sob supervisão palestina e internacional. O Hamas afirmou ter aceito o roteiro proposto pelos mediadores, classificando a decisão como um compromisso com os interesses do povo palestino.
Negociações e desafios
Na semana passada, o presidente dos EUA, Donald Trump, havia mencionado um acordo do “Conselho de Paz” para o “desarmamento completo” do Hamas e de outros grupos armados em Gaza. Em resposta, o Hamas reiterou que o progresso na implementação da segunda fase está condicionado ao fim das operações militares israelenses e ao cumprimento dos compromissos estabelecidos na primeira fase do acordo. O grupo também esclareceu que a discussão sobre armas pesadas na segunda fase não implica desarmamento imediato, mas está vinculada à retirada completa de Israel, ao início da reconstrução, ao deslocamento de uma força internacional e a garantias do direito à autodeterminação palestina. Basem Naim, membro do gabinete político do Hamas, declarou que “agora a bola está com Israel” para cumprir suas obrigações.
Analistas apontam que a aceitação do acordo pelo Hamas reflete uma combinação de fatores, incluindo as consequências da guerra, cálculos políticos e adaptação estratégica. Mustafa Ibrahim, analista político de Gaza, indicou que a flexibilidade do Hamas se deve aos altos custos humanos, militares e políticos do conflito prolongado, o que o impulsionou a responder mais rapidamente às iniciativas de mediação. Ele acrescentou que essa aceitação não representa uma mudança política fundamental, mas sim uma tentativa de se adaptar às realidades do conflito. Akram Atallah, outro analista palestino, observou que o Hamas demonstrou mais flexibilidade em questões que antes eram consideradas inegociáveis, buscando garantir que quaisquer concessões sejam acompanhadas por compromissos recíprocos de Israel.
Persistência das divergências
Apesar do significado político da aceitação do roteiro pelo Hamas e de seu potencial para impulsionar futuras negociações, as disputas não resolvidas continuam a desafiar as perspectivas de paz em Gaza. Esmat Mansour, analista política de Ramala, destacou que a proposta não elimina as divergências fundamentais entre as partes, e as questões mais sensíveis foram postergadas para a fase de implementação, onde deverão enfrentar seu maior teste.
Uma das principais divergências é sobre o armamento pesado. O Hamas vincula essa questão à retirada israelense, enquanto Israel insiste que seu exército não deixará Gaza até que o “desarmamento genuíno” do Hamas seja alcançado. Outros desafios também são evidentes. Atallah acredita que o comitê nacional palestino proposto enfrentaria obstáculos consideráveis, como a obtenção de consenso, a reorganização de instituições e a captação de recursos suficientes para a reconstrução. Os próximos meses serão cruciais para determinar se os acordos alcançados nas negociações poderão se traduzir em entendimentos duradouros no terreno. Mansour conclui que a verdadeira medida do sucesso não será o anúncio de um acordo, mas a capacidade de todas as partes de implementar cada etapa conforme seus compromissos, o que poderia proporcionar uma oportunidade genuína para a estabilidade de longo prazo na Faixa de Gaza.







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