Foi com grande pesar que neste dia 15 soube do falecimento de Amelinha Teles, a Maria Amélia de Almeida Teles, aos 81 anos. Foram muitos anos de luta, de sofrimento, de resistência, mas também de alegrias, vitórias e conquistas. A maior parte da vida foi ao lado de seu companheiro César, falecido em 2015.
Conheci o casal em 1967 ou início de 68, quando, perseguidos pela ditadura militar, tiveram de abandonar Minas Gerais e refugiaram-se no Rio. César, dirigente sindical ferroviário, e ela, militante estudantil, militavam no PCdoB. Um irmão meu, militante do PCdoB, já os conhecia de Minas. Eu ainda estava no velho PCB, embora amigo do PCdoB. Dali, eles tomaram algum destino de que não tive conhecimento. E, por anos, não mais os vi.
Em 1972, já dirigente do PCdoB em São Paulo, tomei conhecimento da prisão e assassinato de Carlos Nicolau Danieli e da prisão do casal Teles. Poucos meses depois, fui preso pela mesma Operação Bandeirantes, ou Sucursal do Inferno, como eles preferiam chamar, sob a direção do mesmo famigerado major Brilhante Ustra. Todos fomos reunidos num mesmo processo, que englobou também outros militantes do PCdoB, como o José Genoino. E passamos por vários presídios, terminando no Presídio Político de São Paulo, que era chamado pelo coronel Erasmo Dias, secretário de Segurança, de “célula comunista mais bem organizada do país”.
Amelinha havia sofrido, juntamente com seu companheiro, as torturas daquela Sucursal do Inferno, para cujas seções foram levados e também torturados seus dois filhos, crianças, Janaina e Edson Luís. Amelinha foi solta antes do julgamento na Auditoria Militar, e nós fomos condenados, cada um, a 5 anos de prisão e 10 anos de perda dos direitos políticos. Mas foi nessa fase, uma vez na rua, em São Paulo, que Amelinha cresceu. Primeiro, na solidariedade aos presos políticos, articulação das famílias e dos presos com a sociedade. Esse trabalho teve uma importância muito grande, levando à repercussão das denúncias das torturas, assassinatos e desaparecimentos de presos políticos e servindo para a formação da ampla base do movimento pela anistia, mais tarde ampla, geral e irrestrita, que tomou conta do país.
A partir de então, a vida de Amelinha passou a ser um centro da resistência à ditadura e de defesa da democracia e dos direitos humanos. Fez-se jornalista, atuou no Brasil Mulher e colaborou no Movimento. Tornou-se escritora, sendo importante voz do movimento feminista, sobre o qual publicou diversos livros. Seu último livro foi de memórias, do tempo de prisão no DOI-CODI: “Contos da cela três”, a cela reservada às mulheres no centro de tortura comandado por Ustra.
Amelinha teve um destacado papel no movimento pela anistia aos presos políticos, na defesa dos direitos humanos de todos os oprimidos e no movimento feminista. Deixa uma enorme lacuna. Mas sua resiliência jamais será esquecida por todos os amantes da democracia e dos direitos humanos e sociais. E especialmente por todos aqueles que tiveram oportunidade de com ela conviver.






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