247 – O combate simultâneo à poluição do ar e às mudanças climáticas pode gerar um impacto positivo direto na economia mundial, com potencial para elevar o Produto Interno Bruto (PIB) global em 2,8% até 2035 e em 4,5% até 2050, informa reportagem do Financial Times com base em estudo divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU). A estimativa surge em um cenário crítico no qual a vasta maioria da população do planeta permanece exposta a níveis de poluição do ar incompatíveis com os padrões globais de saúde.

De acordo com o levantamento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), os custos para a implementação das ações integradas representariam cerca de 0,7% do PIB global ao longo da próxima década. Em contrapartida, os retornos financeiros e sociais superam amplamente os investimentos: calcula-se que, para cada US$ 1 investido nessas ações conjuntas, sejam gerados aproximadamente US$ 15 em benefícios econômicos totais.

Mesmo quando analisados exclusivamente os benefícios mensuráveis de mercado — como a redução de gastos hospitalares e o aumento da produtividade —, o retorno estimado permanece altamente vantajoso, alcançando cerca de US$ 4 para cada dólar aplicado. Por outro lado, a inércia tem um custo elevado: cada ano de atraso na implementação das medidas resultaria na perda de mais de US$ 1,5 trilhão por ano, equivalente a 0,5% do PIB mundial em benefícios diretos e indiretos não aproveitados.

Para efeito de comparação com os recursos exigidos para o combate à poluição e ao aquecimento global, mais de 2% do PIB mundial foram destinados a subsídios aos combustíveis fósseis em 2022 — insumos que geram severos danos ambientais e à saúde quando queimados —, enquanto cerca de 9% do PIB global foi alocado para despesas de saúde em 2023.

Integração de agendas e o benefício econômico

O estudo mapeou 25 medidas estratégicas que possuem o potencial de atacar simultaneamente a poluição do ar e as emissões de gases de efeito estufa. As soluções incluem a expansão de fontes de energia renovável, o estímulo ao uso de veículos elétricos, o acesso a alternativas mais limpas para o preparo de alimentos, a aplicação mais eficiente de fertilizantes na agricultura e o encerramento da ventilação rotineira em operações de extração de petróleo e gás.

“Por tempo demais, tratamos a ação climática como um custo a ser administrado e a poluição do ar como uma consequência lamentável do desenvolvimento”, ressaltou Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma. Segundo Andersen, as ferramentas práticas já estão disponíveis, mas o principal gargalo reside na governança: “falta ao mundo uma liderança firme de governos, instituições financeiras e empresas para implementá-las com a rapidez e a coordenação exigidas por esta crise”.

Coautor do estudo e pesquisador da Universidade Tsinghua, na China, Shuxiao Wang enfatizou que a base econômica do relatório não depende de tecnologias inéditas, mas de alternativas “comprovadas e estão disponíveis no mundo”.

A sobreposição entre as duas crises ocorre porque ambas compartilham as mesmas causas estruturais, incluindo a queima de combustíveis fósseis, processos industriais poluentes e práticas agrícolas inadequadas. Ao tratar ambos os problemas de forma unificada, cria-se um dinamismo econômico que não se verifica nas abordagens isoladas.

“Quando as modelamos em conjunto, os retornos foram maiores do que cada uma poderia apresentar isoladamente, porque, com muita frequência, ambas são impulsionadas pelas mesmas fontes, pelos mesmos setores e pelas mesmas políticas”, explicou Simon Dietz, copresidente da avaliação e professor de política ambiental na London School of Economics. Dietz apontou que o relatório apresenta “a evidência mais rigorosa até agora de que tratar as mudanças climáticas e a poluição do ar como problemas distintos nos leva a subestimar os benefícios de enfrentar qualquer um deles”, destacando que a atuação conjunta adicionaria 0,2% ao crescimento econômico global.

Impactos na saúde pública e o cenário global

Os benefícios da integração estendem-se diretamente à saúde e ao bem-estar social, englobando a diminuição de despesas médicas, o incremento na produtividade do trabalho, a prevenção de danos materiais e a redução de mortes prematuras.

O diagnóstico do Pnuma aponta o peso devastador da poluição do ar sobre a vida humana. Em 2025, estimou-se que 6,4 milhões de mortes prematuras no mundo estiveram associadas à exposição à poluição atmosférica externa gerada por atividades humanas. Adicionalmente, a poluição do ar doméstico — provocada, entre outros fatores, pela queima de combustíveis sólidos em residências — esteve vinculada a 2 milhões de mortes prematuras no mesmo período, atingindo cerca de 300 mil crianças.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 99% da população mundial ainda respira ar contaminado com níveis de poluição superiores aos limites considerados seguros.

O alerta do Pnuma ocorre em uma sequência de relatórios preocupantes, publicados pouco depois do aviso de que o planeta caminha para ultrapassar, em poucos anos, o teto de aquecimento global de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais estipulado pelo Acordo de Paris.

Apesar da gravidade dos dados, algumas nações já registram progressos ao unir as duas agendas. Países como o Canadá e a China passaram a integrar formalmente o combate à poluição atmosférica às metas climáticas. No caso chinês, as políticas adotadas reduziram em quase 60% os níveis de poluentes atmosféricos nocivos capazes de atingir a corrente sanguínea entre 2013 e o final do ano passado. Essa redução expressiva refletiu-se diretamente no sistema de saúde do país, gerando uma queda de 30% na proporção de internações hospitalares decorrentes de complicações causadas pela poluição.