O Brasil, a esquerda e a causa palestina se despedem de Lejeune Mirhan, sociólogo, professor e militante, que faleceu recentemente em Campinas, aos 69 anos. Reconhecido por sua fervorosa defesa da Palestina e sua atuação política, Mirhan deixou uma marca indelével em diversas frentes, desde a academia até os movimentos sociais e a imprensa progressista.

Sua trajetória foi marcada por um profundo engajamento com a causa palestina, que ele adotou como própria, apesar de ser brasileiro de Corumbá, descendente de sírios. Uma das facetas mais simbólicas de sua identificação com a luta foi a adoção do nome de guerra "Abu Jihad" – "Pai da Luta" –, em homenagem a Khalil al-Wazir, cofundador do Fatah e figura central da resistência palestina. Essa escolha, segundo um amigo, revelava a profundidade de sua dedicação e sua visão de que a Palestina não era uma causa distante, mas uma luta intrínseca.

Um Legado de Luta e Intelectualidade

Lejeune Mirhan, cujo nome de registro era Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho, adotou o sobrenome de seus ancestrais, Mirhan, nos anos 2000. Sua carreira de mais de cinco décadas foi um elo constante entre o rigor intelectual e a paixão política. Ele esteve envolvido na fundação do Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Palestino em 1982 e participou ativamente de iniciativas como o Comitê pela Paz, em 1990, e o Grupo de Trabalho Árabe (GT Árabe), em 2010. Em 2012, desempenhou um papel crucial no Comitê pelo Estado da Palestina, que apoiava a estratégia da OLP para o reconhecimento da Palestina como membro pleno da ONU.

Professor da Universidade Metodista de Piracicaba por duas décadas, Mirhan também presidiu o Sindicato dos Sociólogos de São Paulo por duas gestões, entidade que ajudou a fundar ao lado de Florestan Fernandes, seu orientador de mestrado. Foi dirigente sindical, um dos fundadores da CTB, membro do Conselho Nacional do Cebrapaz, colunista do Brasil 247 e apresentador do programa “O Mundo como ele é”. Sua vasta obra inclui mais de 20 livros e centenas de artigos, entre eles “Atualidade da luta anti-imperialista”, “E se Gaza Cair…” e “Palestina: história, sionismo e suas perspectivas”. Nessas publicações, ele defendia a multipolaridade e o papel estratégico de nações como China, Rússia, Irã e o Sul Global na formação de uma nova ordem mundial.

A Esperança e o Compromisso Inabalável

Mesmo diante dos desafios e da violência contínua em Gaza, Lejeune Mirhan manteve a esperança. Em uma carta de 1988, ele expressou o desejo de ver a bandeira palestina hasteada em território palestino livre, um sonho que, apesar de não realizado em vida, nunca o fez desanimar. Segundo amigos e companheiros de luta, ele continuou a erguer sua voz contra as injustiças e a acreditar na libertação até seus últimos dias.

Sua partida deixa um vazio na imprensa progressista, nas salas de aula e nas trincheiras da solidariedade internacional. Nádia Campeão o descreveu como “um comunista guerreiro, verdadeiramente internacionalista, corajoso e muito inteligente.” José Reinaldo Carvalho, companheiro de mais de 40 anos, afirmou que seu legado de coerência, combatividade e dedicação permanecerá vivo para todos que continuam a lutar.