O ministro André Mendonça detonou uma bomba nuclear no STF. Ele cometeu ilegalidades e subverteu o regimento da Suprema Corte para concretizar uma jogada política que fortalece a narrativa da extrema-direita contra o Judiciário e gera benefício eleitoral para Flávio Bolsonaro.
É certo e necessário que fatos suspeitos e comprometedores da relação de Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes, assim como do PGR Paulo Gonet com o banqueiro, devam ser apurados.
É certo, também, que o ministro-relator do caso Master deveria observar os ritos legais para, sendo o caso, apurar tais fatos.
Todavia, assim como fez recentemente em relação a Fábio Luís, Mendonça mais uma vez repetiu Sergio Moro e atuou como policial, promotor e juiz soberano para atingir alvos pré-estabelecidos e, com isso, alcançar os objetivos políticos pretendidos.
Depois de usurpar a prerrogativa do plenário do STF para, na prática, iniciar ilegalmente a investigação policial do ministro Alexandre de Moraes, Mendonça levantou o sigilo do relatório de 218 páginas da PF para grande êxtase da mídia hegemônica, das redes sociais e de políticos extremistas.
Uma decisão tão grave quanto audaciosa, que foi complementada com a Petição 16.662, para que o plenário do STF delibere sobre o caso em sessão presencial, que “deverá ocorrer de forma pública e transparente”, na visão dele — ou seja, numa exibição estilo BBB, para constranger a Suprema Corte perante a sociedade e enaltecê-lo como o “tutor da moral”, nas palavras do jurista Pedro Serrano.
Alguém poderá dizer que Mendonça cometeu erros grosseiros, foi descuidado e, assim, teria agido como um kamikaze. Seria ingenuidade, entretanto, caracterizar a ação como um movimento errado ou improvisado.
Do ponto de vista legal e processual ele errou, sim, e de modo extremamente grave, mas na realidade foi um risco calculado para uma aposta de grande envergadura que poderá influenciar a disputa eleitoral.
O objetivo foi plenamente alcançado. O dano já produzido é notável, abalou profundamente a Suprema Corte e reforçou a retórica das candidaturas extremistas ao Senado para fazer o impeachment de ministros do STF. Os mais de R$ 60 milhões de dinheiro do Vorcaro para Flávio Bolsonaro caíram no esquecimento.
Mendonça conseguiu a proeza de tirar o gângster-filho do radar da investigação e colocar na órbita do STF o escândalo Master, que é uma produção genuinamente bolsonarista, nascida com Roberto Campos Neto no Banco Central — e, sabe-se agora, com a aproximação de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes propiciada por Fabio Faria, um ex-ministro de Bolsonaro que privava da intimidade do banqueiro mafioso.
A jogada milimetricamente calculada de Mendonça balança a eleição que reconfigurará o jogo de poder no STF.
O presidente eleito em outubro indicará quatro novos ministros no curso do mandato, para preencher a vaga do ex-ministro Luís Roberto Barroso e as deixadas pelas aposentadorias de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes.
Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição, Mendonça se agigantará como o líder de uma maioria schmittiana no STF no contexto de uma nação vivendo seu ocaso democrático sob um governo fascista.
A reeleição do presidente Lula em 4 de outubro é a resposta democrática mais eficaz à ofensiva da extrema-direita local e internacional contra a soberania e a democracia do nosso país.






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