Na noite deste domingo, na quadra da Grande Rio, Anitta foi coroada rainha de bateria em cerimônia que teve um simbolismo histórico. A coroa foi entregue por Eloína dos Leopardos, travesti que em 1976 foi a primeira rainha de bateria da Beija-Flor, sob a direção de Joãosinho Trinta. A cena marcou a transmissão de um legado que atravessa quase cinco décadas de samba e cultura negra.
Um gesto de transmissão e memória
Antes de receber a coroa, Anitta evocou seu orí, pediu licença à ancestralidade e chamou Eloína para o centro da cerimônia. “Se hoje uma coroa há de tocar o meu orí, que venha das mãos de quem me guarda, me guia e abre os meus caminhos”, disse a artista. Ela ainda apresentou Eloína como “a travesti que abriu caminho para que tantas outras pudessem reinar”. A escolha deslocou o ato do campo da celebridade para o da memória, ressaltando que lugares hoje ocupados por grandes artistas foram conquistados por corpos que enfrentaram violência e apagamento.
Eloína se tornou referência na vida cultural do Rio de Janeiro com a Noite dos Leopardos, influenciando gerações da comunidade LGBTQIA+. Quase 50 anos depois, foi ela quem colocou a coroa sobre a cabeça de Anitta, criando uma imagem de dobra temporal: o passado retorna para lembrar que toda posição de destaque carrega uma história anterior.
O enredo de 2027 e a espiritualidade
O gesto ganha ainda mais força diante do enredo que a Grande Rio levará à Sapucaí em 2027: “Sankofa Tabon: Os Retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade”. A narrativa trata dos africanos escravizados que, após conquistar a liberdade, voltaram ao continente, especialmente à atual Gana. O conceito de Sankofa, presente no samba-enredo, remete a olhar o passado para construir o futuro — lógica que se refletiu na coroação.
Anitta também invocou Exu, pombagiras e a ancestralidade, associando o gesto à força das encruzilhadas. “Das mãos de Exu, receba a coroa; da encruzilhada, a força; da ancestralidade, o fundamento”, afirmou. A dimensão espiritual dialoga diretamente com o samba da escola, que trabalha com Xangô, Exu e a ideia de retorno e liberdade.
A repercussão nas redes sociais, em parte, reduziu a cerimônia a uma disputa com Virginia Fonseca, que antes ocupava o posto de rainha de bateria da Grande Rio. No entanto, a escola reorganizou o rito e a entrega da coroa por Eloína estabeleceu outra narrativa. A pergunta central não é quem sucede a quem, mas por que Eloína foi escolhida para coroar. A resposta está na transmissão: uma travesti pioneira devolve ao presente um símbolo de poder que ajudou a construir.







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