A visita ao Museu do Xizang (ou Museu do Tibete), em Lhasa, revela duas narrativas históricas distintas. Antes de 1959, o Tibete vivia sob um sistema feudal de servidão, onde a riqueza, a terra e o poder eram centralizados por uma aristocracia e instituições religiosas. A partir daquele ano, uma revolução promoveu a abolição desse sistema e a integração de grande parte da população à vida econômica, social e política.

Essa trajetória tibetana provoca uma reflexão sobre a história brasileira, que também enfrentou desafios semelhantes após a abolição da escravidão. No antigo Tibete, a sociedade era estruturada em torno de uma elite de aristocratas, grandes proprietários de terras e líderes religiosos, enquanto a maioria vivia em dependência econômica e social. A terra e a educação eram limitadas, e a mobilidade social era quase inexistente. Mosteiros exerciam não apenas poder religioso, mas também político, possuindo vastas áreas de terra e legitimando uma ordem social desigual.

A Revolução Democrática Tibetana

A partir de 1959, a Revolução Democrática no Tibete desmantelou essa estrutura, abolindo as relações servis e promovendo a redistribuição de terras. Antigos servos foram reconhecidos como cidadãos com direitos. O governo investiu em infraestrutura, saúde, educação, habitação e transporte, levando estradas, ferrovias, hospitais e escolas a regiões isoladas por séculos. Indicadores sociais, como o aumento da expectativa de vida e a queda da mortalidade infantil, atestam a dimensão dessa mudança.

Essa transformação contrasta com a experiência brasileira pós-1888, quando a abolição da escravidão libertou formalmente os escravizados, mas os deixou à própria sorte. No Brasil, não houve reforma agrária, distribuição de terras ou políticas de inclusão econômica. As elites agrárias mantiveram suas propriedades e privilégios, resultando na perpetuação de uma estrutura social desigual e na consolidação de um racismo estrutural. A liberdade jurídica não foi acompanhada pela emancipação econômica.

No Tibete, a ruptura com a ordem feudal foi acompanhada por uma reorganização profunda da propriedade e um projeto de desenvolvimento que visava à incorporação das massas populares ao processo produtivo e aos serviços públicos. O museu de Lhasa busca recordar que a pobreza e a desigualdade são produtos de relações de poder e escolhas políticas, não fenômenos naturais.

A principal lição é que estruturas de dominação podem ser desmanteladas. Enquanto o Tibete, através da revolução chinesa, promoveu uma ruptura profunda com a ordem feudal e buscou integrar os excluídos ao desenvolvimento nacional, a abolição brasileira preservou os privilégios das elites e transferiu o peso da desigualdade para as gerações futuras.