O ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou em depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que sua proposta de delação premiada visava denunciar exclusivamente membros do “núcleo do atual governo”. Ele, contudo, não detalhou outras relações políticas nem mencionou seu envolvimento no financiamento do filme “Dark Horse”, biografia sobre Jair Bolsonaro, cujos repasses foram negociados pelo senador Flávio Bolsonaro. As informações foram divulgadas por Camila Bomfim, do G1, e o depoimento foi prestado a um juiz auxiliar que acompanha o processo do caso Master no STF, sob relatoria de Mendonça.
Vorcaro justificou suas relações políticas como uma estratégia de defesa, alegando que buscava proteção contra ataques. “Toda a minha colaboração, ela, no que tange a pessoas, são pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo. E aí, nesses momentos, teve uns casos que foram cruzadas linhas de moralidade, linhas de ilicitude, que esses eu pretendia relatar”, declarou o ex-banqueiro. O gabinete do ministro André Mendonça informou que a oitiva foi solicitada pela defesa de Vorcaro, que alegou estar sofrendo intimidações e pediu urgência para ser ouvido.
PGR pede arquivamento por ausência de provas
A Procuradoria-Geral da República (PGR), entretanto, solicitou o arquivamento das denúncias de Vorcaro na quarta-feira (2). Segundo o órgão, o empresário não apresentou nenhuma prova ou elemento concreto para sustentar suas alegações durante o depoimento. A PGR concluiu que o declarante não noticiou fatos concretos ou juridicamente delimitados que pudessem impulsionar investigações, nem conferiu o mínimo de verossimilhança às suas afirmações.
Acusado pela Polícia Federal de chefiar um esquema de fraudes financeiras no Banco Master, que pode somar até R$ 12 bilhões, Vorcaro está preso em Brasília. Ele interpretou sua prisão como uma tentativa de silenciá-lo e alegou ter desistido do acordo de colaboração por sentir-se ameaçado por “pessoas do poder”. “Desde que eu fui preso… Na verdade, a minha prisão, no meu entendimento, ela já foi uma intimidação para que eu não externasse os fatos que eu desejava falar desde o começo dessa operação”, disse o ex-banqueiro. Essa justificativa contrasta com o histórico do processo, já que a defesa havia apresentado uma proposta de delação premiada ao Ministério Público em 15 de junho, rejeitada por falta de novos elementos decisivos para as investigações. A prisão preventiva do empresário foi mantida por decisão colegiada do STF.
Transações controversas e prejuízo ao BRB
Além da delação rejeitada, Vorcaro usou o depoimento para defender a tentativa de fusão e venda do Banco Master ao Banco Regional de Brasília (BRB), classificando a operação como benéfica. Ele expressou o desejo de ter a oportunidade de explicar o que realmente aconteceu e o quanto a fusão seria vantajosa. Contudo, as investigações da Operação Compliance Zero revelam um cenário preocupante. Em abril, a operação resultou na prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, acusado de liberar operações sem lastro e governança com o Banco Master.
Estimativas do próprio BRB indicam que cerca de R$ 8,8 bilhões em créditos do Banco Master, adquiridos pela instituição estatal, correspondem a títulos inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação, caracterizando “crédito podre” com alto potencial de causar um rombo no patrimônio público. O governo do Distrito Federal planeja reaver R$ 2,2 bilhões por meio de garantias, mas precisará contratar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões para cobrir o restante dos papéis sem valor.







Comentários
Seja o primeiro a comentar.