As recentes sanções e ações militares dos Estados Unidos contra o Irã podem resultar em um efeito contrário ao desejado por Washington, conforme avaliação do jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar. Ele argumenta que essas medidas estão fortalecendo a integração econômica entre Teerã, Pequim e Moscou, incentivando a criação de estruturas financeiras autônomas em relação ao sistema ocidental.
Em entrevista ao programa Judging Freedom, Escobar destacou que a Organização para Cooperação de Xangai (OCX) é uma peça central nesse processo. Segundo ele, a política do governo Donald Trump contra o Irã vai além da pressão sobre Teerã, atingindo também a China, principal compradora do petróleo iraniano. Isso, por sua vez, leva países da Eurásia a desenvolverem instrumentos para diminuir sua dependência de sanções impostas pelos EUA. Escobar conclui que, na prática, "Trump está prejudicando mais os interesses ocidentais do que o próprio Irã".
Impacto na economia e comércio global
O analista aponta que a economia iraniana, após anos de sanções, já desenvolveu canais alternativos para a venda de petróleo, principalmente para compradores asiáticos. Essas operações frequentemente utilizam uma frota de petroleiros que operam fora dos principais sistemas financeiros, de seguros e de monitoramento do comércio marítimo internacional. Essa estrutura, na visão de Escobar, limita a capacidade de Washington de causar os mesmos impactos que sanções financeiras teriam sobre economias mais integradas aos sistemas ocidentais.
Ele alerta para o risco de que uma escalada no Golfo Pérsico, envolvendo o transporte de petróleo, possa gerar consequências amplas. Um eventual ataque ou apreensão de navios iranianos poderia provocar reações contra embarcações ligadas a produtores de petróleo da região. Mesmo um incidente isolado com um navio comercial segurado internacionalmente poderia elevar significativamente os custos de seguro, transporte e segurança, gerando um "efeito em cascata sobre todo o sistema financeiro internacional de segurança" e pressionando os mecanismos que sustentam o comércio global de energia.
O papel da China e a OCX
A China desempenha um papel crucial nesse cenário. Como maior comprador de petróleo iraniano, Pequim possui a capacidade financeira e comercial para realizar transações fora dos mecanismos controlados pelos EUA. Refinarias chinesas independentes já adquirem energia iraniana, com parte dessas operações ocorrendo sem a dependência direta do dólar. Escobar afirma que as sanções são "em grande medida, contra a China", e não apenas contra o Irã.
Ele observa que empresas e instituições financeiras chinesas demonstram crescente relutância em acatar medidas unilaterais de Washington. Pequim estaria desenvolvendo instrumentos jurídicos e econômicos para proteger suas companhias de sanções estrangeiras, alterando um pilar da política de pressão econômica norte-americana: a capacidade de excluir entidades do sistema financeiro global através do dólar e das instituições ocidentais.
Este movimento se insere em uma transformação mais ampla da Organização para Cooperação de Xangai (OCX). Inicialmente focada no combate ao terrorismo, a organização, que inclui países como Índia, Paquistão e Irã, evoluiu para um "enorme organismo geoeconômico". Escobar a descreve como uma organização multilateral que, em paralelo com o BRICS, busca construir um mundo multipolar e um sistema distinto de relações internacionais. Entre os projetos em discussão está a criação de um banco de desenvolvimento da OCX, com o objetivo de ser independente de pressões externas e menos dependente do dólar.
Novas rotas e reorganização econômica
Além das finanças e da energia, a disputa se estende às rotas comerciais. Escobar destaca a expansão de corredores como a Rota Marítima do Norte, que conecta Rússia, China e outros mercados asiáticos, oferecendo uma alternativa ao Canal de Suez. A Rússia busca ampliar a infraestrutura para viabilizar a navegação ártica durante todo o ano, com a China como investidora e usuária potencial.
Esses projetos, combinados com novos bancos, sistemas de pagamentos, acordos energéticos e comércio em moedas nacionais, criam uma arquitetura econômica eurasiática menos dependente das instituições ocidentais pós-Segunda Guerra Mundial. Para o analista, "eles estão estabelecendo os trilhos para que a Eurásia como um todo construa um sistema independente de relações internacionais e econômicas, completamente independente do Ocidente no longo prazo".
Contradição na política dos EUA
Escobar argumenta que a crescente distância entre a política de sanções de Washington e a reorganização econômica da Eurásia revela uma contradição central na abordagem norte-americana. Quanto maior a tentativa de usar sanções, o dólar e o acesso ao sistema financeiro como instrumentos de coerção, maior o incentivo para que os países afetados desenvolvam alternativas.
Nesse cenário, a capacidade de resistência do Irã às sanções se vincula a uma transformação econômica mais ampla na Eurásia, envolvendo comércio de energia, moedas nacionais, bancos multilaterais, corredores logísticos e novas instituições. Washington, segundo Escobar, ainda age como se mantivesse o poder de determinar unilateralmente as regras dessas relações, enquanto a consolidação de estruturas como a OCX sinaliza uma mudança significativa.







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