247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou o seu discurso no primeiro dia dos Debates Gerais da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para disparar ameaças diretas de intervenção armada e uso da força contra diferentes regiões do planeta. Durante a sua fala no plenário do organismo internacional, em Nova York, o republicano afirmou que não descarta o emprego do “poderio militar” norte-americano na América Latina, reiterou que pode “aniquilar” o Irã e admitiu abertamente que a recente ação militar promovida por seu governo na Venezuela teve motivações majoritariamente econômicas e voltadas ao controle de reservas de petróleo.
Retórica nacionalista e críticas a governos anteriores
Com uma abordagem carregada de elementos patrióticos e focado na exaltação de seu próprio governo, Trump declarou que os Estados Unidos “estão mais fortes hoje do que nunca”. O mandatário aproveitou o púlpito internacional para repetir bordões de sua trajetória política, afirmando que o país vive uma “era de ouro”, ao mesmo tempo em que direcionou duras críticas à gestão do ex-presidente Joe Biden, que deixou o poder em 2025.
“Portanto, enquanto outros falavam, eu agia; enquanto outros falavam de paz, eu promovia a paz. Enquanto outros ignoravam ameaças, eu as enfrentava. Enquanto outros falavam de coragem, a América a demonstrava”, disse o presidente americano.
Ultimato ao Irã e escalada de tensões
Ao detalhar a guerra contra o Irã, conflito lançado por sua administração em fevereiro e que se arrasta há mais de seis meses sem perspectiva de resolução, o republicano manteve o tom belicista. Trump assegurou que “jamais permitirá” que Teerã desenvolva ou obtenha armas nucleares e fez questão de alertar as nações europeias sobre o avanço tecnológico militar iraniano na fabricação de mísseis com alcance capaz de atingir a Europa.
O chefe da Casa Branca afirmou que os EUA têm uma “decisão a tomar” sobre os rumos do conflito e pressionou a comunidade internacional para que promova um isolamento econômico total do país persa, em consonância com as sanções já impostas por Washington. Ao abordar o futuro das relações, o presidente colocou como alternativa a assinatura de um tratado diplomático após as eleições de novembro ou a destruição completa da República Islâmica.
“Eles eram os valentões do Oriente Médio, mas não são mais. Desde o primeiro dia em que assumi o cargo, a postura política tem sido inabalável. Jamais permitirei que o Irã tenha uma arma nuclear!”, declarou. “Será feito um acordo com o Irã que lhes permita reconstruir e criar um país muito maior do que jamais foi? Ou eu aniquilo a República Islâmica?”, questionou o governante.
Intervenção na Venezuela, cobiça pelo petróleo e pressão na América Latina
Ao voltar sua atenção para a América Latina, Trump defendeu expressamente a intervenção militar promovida pelas forças norte-americanas na Venezuela no início do ano. A operação culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro — mantido sob custódia a poucos quilômetros do prédio da ONU — e no estabelecimento de um alinhamento direto com a presidente interina Delcy Rodríguez, figura histórica do chavismo.
Sem rodeios, o republicano assumiu o caráter predatório e econômico da operação, citando acordos recentes para a concessão de áreas de exploração petrolífera no país sul-americano.
“Quando você soma os Estados Unidos e a Venezuela, nós temos mais de 60% do petróleo do mundo. Ao vencedor, os espólios”, declarou Trump, completando em seguida com uma ameaça explícita de novos empregos de força na região: “Nossas ações na Venezuela são a prova de que os Estados Unidos não permitirão mais que ameaças à América ganhem terreno em qualquer parte do Hemisfério Ocidental. E, se necessário, usaremos nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos”.
Na mesma linha de ataque aos atores regionais, o presidente dos EUA equiparou os cartéis de narcotráfico atuantes nas rotas do Caribe e do Pacífico ao grupo terrorista Estado Islâmico, defendendo que seus membros sejam classificados como combatentes inimigos e submetidos a procedimentos de eliminação, prisão ou banimento sem direito à libertação.
Expansionismo na Groenlândia e bases militares
Em outro ponto de sua intervenção, o presidente norte-americano detalhou os termos das negociações mantidas com a Dinamarca para o controle da Groenlândia. Trump anunciou o plano de construir “duas grandes bases militares” no território ártico, assegurando que Washington exercerá “controle permanente” sobre a segurança da ilha para barrar a presença de potências rivais na região do Atlântico Norte.
“Jamais será permitido a qualquer adversário dos EUA estabelecer uma presença militar na Groenlândia ou realizar investimentos sensíveis no local sem a nossa aprovação expressa por escrito”, enfatizou, argumentando que o fortalecimento da presença norte-americana protegerá tanto o continente americano quanto a Europa.
Ataques ao Tribunal Penal Internacional e à governança da inteligência artificial
No campo das instituições multilaterais e da tecnologia, Trump rejeitou categoricamente os esforços de cooperação global para gerir os avanços e os riscos da inteligência artificial. O republicano criticou as propostas de regulamentação apoiadas por lideranças internacionais e setores da tecnologia, sugerindo formalmente que a comunidade internacional abandone o termo “inteligência artificial” e passe a adotar o conceito de “superinteligência” (SI).
O tom do discurso subiu ainda mais ao tratar das cortes internacionais. Trump atacou frontalmente o Tribunal Penal Internacional (TPI), chamando os juízes da instituição de “um grupo malvado de pessoas” e sugerindo a renúncia coletiva dos magistrados.
“Os Estados Unidos se opõem à instituição descontrolada conhecida como Tribunal Penal Internacional. Jamais permitiremos que militares americanos ou qualquer outra pessoa sejam submetidos a julgamentos de fachada por um tribunal antiamericano que não tem jurisdição sobre nós”, disparou o presidente, reafirmando que ampliará as sanções individuais contra membros da corte sediada em Haia.
Desgaste interno e fragilidade política nos EUA
Apesar da postura agressiva e da repetição de bandeiras voltadas ao seu eleitorado, o pronunciamento de Trump na ONU ocorre sob a sombra de uma acentuada crise política doméstica. Embora tenha declarado do púlpito que não está disputando a reeleição no pleito parlamentar de novembro, o desempenho de sua gestão ameaça impor uma pesada derrota ao seu grupo político.
Projeções eleitorais apontam para a possibilidade de os democratas conquistarem a maioria nas duas Casas do Congresso americano nas próximas eleições de meio de mandato, o que praticamente inviabilizaria a aprovação de pautas do governo nos dois anos restantes do mandato republicano. A fragilidade política é corroborada por dados recentes de pesquisas de opinião, como o levantamento Reuters/Ipsos, que indica que a aprovação geral de Trump desabou para 32%, enquanto meros 17% dos cidadãos americanos aprovam a sua condução da economia do país.






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