247 – Surtos de preconceito e discriminação contra povos e culturas inteiras têm acompanhado as tensões geopolíticas ao longo da história, transformando nacionalidades e grupos étnico-religiosos em alvos de fanatismo em momentos de crise no sistema internacional. Nos últimos anos, a Rússia passou a enfrentar um debate público intenso sobre o crescimento global da russofobia — manifestada sobretudo no Ocidente como um todo, mas também em países da maioria mundial onde a mídia e a cultura ocidentais exercem peso especial, informa o portal Brasil de Fato em artigo assinado por Anton Bespalov, diretor de programação do Clube de Discussão Valdai.

Esse cenário impulsionou propostas para incluir a russofobia na legislação russa e punir cidadãos e autoridades estrangeiras por esse motivo. Em 2024, o governo da Rússia apoiou um projeto de lei nesse sentido; contudo, dois anos depois, a proposta permanece parada na comissão parlamentar. As razões para essa paralisia são a quase certeza de sentenças inexequíveis contra cidadãos estrangeiros, o risco de duplicar leis já em vigor e, acima de tudo, a imprecisão do próprio termo.

O conceito abarca uma série de fenômenos disparos sob uma perspectiva emocional: o “cancelamento” da arte russa, a proibição de atletas competindo sob a bandeira de seu país, a retórica chauvinista e a discriminação por razões linguísticas. Apesar das causas e mecanismos diferentes, essas ações compartilham o mesmo fio condutor: o alvo é a pertença à Rússia ou ao povo russo, resultando em um sentimento de profunda ofensa para qualquer pessoa que se identifique com a nação.

O episódio Michael Martens e a memória seletiva

A lógica desse cenário ficou evidente no recente alvoroço envolvendo Michael Martens, correspondente do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Durante uma coletiva de imprensa em Belgrado, o jornalista perguntou o que a Europa poderia fazer para “ajudar a matar mais russos”. A declaração — uma violação da ética jornalística e da decência básica — gerou críticas contundentes na Rússia e na Sérvia, levando o próprio jornal a considerar a formulação ambígua e incompatível com sua linha editorial.

A indignação levantou questões sobre o caráter unilateral da expiação alemã pelos crimes nazistas, que reconhece o Holocausto enquanto ignora a guerra de aniquilação travada na União Soviética e na antiga Iugoslávia. Essa memória seletiva produz uma cegueira moral que impede alemães contemporâneos de compreender a reação russa — chegando a acusar o jornalista de uma “russofobia herdada” pelo fato de seu avô ter ocupado um cargo de alto escalão nas forças armadas nazistas, especulando sobre um “Quarto Reich” ou lamentando que a Alemanha não tenha pago um preço alto o suficiente após 1945. Contudo, essa escalada retórica em nada ajuda a causa russa perante o mundo.

O historiador Artem Drabkin resumiu o dilema ao afirmar: “Não podemos responder ao apelo para ‘matar mais russos’ com um apelo para matar mais alemães, ucranianos ou europeus […] Defender o próprio país, destruir um inimigo armado em batalha, julgar criminosos de guerra, exigir retribuição — tudo isso é correto e necessário. Mas um povo não pode ser declarado alvo legítimo”.

Martens se vê como representante de uma superpotência moral — a União Europeia — e de um país, a Alemanha, que julga ter saldado integralmente suas dívidas morais e se sente no direito de cobrar os outros. O fato de que essa quitação foi alcançada por meio de décadas de autorepressão nacional sob pressão externa acentua o tom moralizante. Para a camada de elite que domina o discurso público ocidental, o confronto com a Rússia é, antes de tudo, de ordem moral.

Sanções, cancelamento e o papel das grandes empresas de tecnologia

Essa abordagem é a chave para compreender a onda de russofobia no Ocidente: uma tentativa ambiciosa de “cancelar” uma parte substancial da civilização humana, incluindo ciência, arte, esporte e turismo. Em última análise, a iniciativa visa o mesmo objetivo das sanções econômicas: forçar a Rússia a “mudar seu comportamento”.

A premissa ocidental é de que o “cancelamento” possa ser revogado assim que o objetivo for alcançado. No entanto, a própria história russa sugere que mudanças de comportamento impostas de fora não são metas alcançáveis, e regimes de sanções geram realidades duradouras. O boicote reativou velhos preconceitos, como o desdém histórico da “Europa civilizada” pela “Rússia bárbara” — retratado no século XIX pelo aristocrata francês Astolphe de Custine em sua obra “A Rússia em 1839” —, além de séculos de medo e ressentimento na Europa Oriental.

O resultado foi a legitimação de fato da russofobia no Ocidente, exemplificada pela decisão da Meta de permitir temporariamente apelos à violência contra cidadãos russos em suas plataformas — medida que levou a empresa a ser designada como organização extremista na Rússia. Embora a política contivesse restrições no papel, na prática abriu uma caixa de Pandora de discurso de ódio.

No próprio Ocidente, a medida gerou duras críticas. O comentarista norte-americano Matt Walsh, apresentador do portal The Daily Wire e conhecido pelo documentário “O que é uma mulher?” (2022), destacou: “As empresas de mídia social se reuniram e decidiram que, na verdade, é aceitável incitar à violência, desde que seja contra russos. Nossos senhores das grandes empresas de tecnologia estão agora, literalmente, decidindo quem merece viver e quem merece morrer.”

Geopolítica, soft power e a presença concreta

A hostilidade em relação a grandes potências não é um fenômeno isolado. O sentimento antiamericano é presente em todo o Sul Global e cristaliza-se no grito de “Morte à América” — embora o Irã insista que o alvo é a política imperialista, e não o povo americano, tendo inclusive suspenso o slogan após o 11 de setembro de 2001 em solidariedade às vítimas. Da mesma forma, a ascensão da China gera sinofobia na Ásia Central e nos Estados Unidos, alimentada por teorias sobre as origens da Covid-19.

A experiência internacional mostra que combater fobias não deve ser um fim em si mesmo, e investimentos em imagem ou poder brando (soft power) não se pagam quando tratados como um fim isolado. A imagem de um país é construída, sobretudo, por meio de sua presença real na vida das pessoas e pelas oportunidades concretas de desenvolvimento que gera.

Ana Livia Esteves e Marco Fernandes, autores do relatório “Cooperação contemporânea entre o Brasil e a Rússia: diretrizes estratégicas para superar restrições estruturais”, do Clube Valdai, analisam a melhora na atitude dos brasileiros em relação à China, apesar do domínio do discurso midiático ocidental no país. Ao descrever o papel econômico e tecnológico chinês no Brasil, os autores concluem que “benefícios econômicos e materiais podem ajudar a minimizar ataques da mídia e da política e impulsionar a popularidade de um país, mesmo diante da oposição daqueles que controlam os meios de produção de narrativas”.

Enquanto a energia russa fornecida à Europa no passado era abstrata para o cidadão comum, na maioria mundial a boa vontade em relação à Rússia cresce de forma orgânica — como na África Ocidental, onde o país é visto como garantia de segurança e força anticolonial.

Na Europa, onde o preconceito nacional possui raízes seculares, seria irrealista esperar o fim completo da russofobia. Contudo, a história demonstra que o preconceito nunca foi um obstáculo intransponível para relações construtivas. Durante a Guerra Fria, a União Soviética construiu uma relação estável com a Finlândia baseada em vantagens tangíveis nas áreas econômica, de segurança e de política externa, dando incentivos para Helsinque manter sentimentos antirrusso sob controle. Construir uma agenda ampla e positiva mostra-se mais eficaz do que responder a cada surto de hostilidade a partir de uma postura defensiva.