Uma carta aberta endereçada a supostos presos políticos iranianos, assinada por renomados intelectuais identificados com a esquerda, como Angela Davis e Judith Butler, gerou controvérsia. O documento, veiculado no jornal britânico The Guardian, foi criticado por supostamente equiparar o Irã, que enfrenta agressões e sanções por parte dos Estados Unidos e de Israel, aos próprios países agressores, utilizando uma metáfora de “duas lâminas de uma tesoura”.
Críticos argumentam que, embora a intenção seja a denúncia de problemas internos iranianos, o contexto da publicação, em meio a uma guerra de agressão, transforma o documento em uma ferramenta para o discurso imperialista. A carta foi divulgada no momento em que os Estados Unidos realizaram novos ataques no sul do Irã, resultando em mortes e feridos, inclusive crianças, durante uma celebração de casamento, o que evidenciaria a assimetria do conflito.
A retórica e a realidade dos ataques
A narrativa da carta, que condena tanto a República Islâmica quanto as potências ocidentais, é vista como uma diluição da condenação aos ataques e sanções. Ao apresentar o governo iraniano como uma ameaça comparável à máquina militar que ataca seu território, desconsidera-se a assimetria fundamental e a reprodução de uma “falsa equivalência” entre o país atacado e os agressores.
É apontado que essa abordagem desconsidera o histórico de resistência do Irã ao imperialismo e ao sionismo, evidenciado por seu apoio à Palestina e oposição à normalização com Israel. O país tem desempenhado um papel ativo na construção de uma ordem multipolar, integrando-se a blocos como o BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai. A crítica sugere que ignorar esses fatores ou classificá-los como “anti-imperialismo vazio” é uma deturpação da realidade.
Crítica e instrumentalização dos Direitos Humanos
A publicação da carta é questionada não apenas por seu conteúdo, mas também por sua oportunidade política. As denúncias contra o Irã recebem ampla cobertura na imprensa ocidental, enquanto crimes cometidos pelos EUA e Israel são frequentemente silenciados ou minimizados. Essa seletividade fortalece a narrativa que tenta converter uma guerra imperialista em uma suposta campanha de direitos humanos.
A preocupação reside na instrumentalização dos direitos humanos para legitimar a destruição de nações soberanas, como já visto em casos como Iraque, Líbia, Afeganistão e Síria, que resultaram em devastação e caos. A crítica final aponta que, diante de uma agressão imperialista, não pode haver equidistância moral entre agressor e vítima, e que a insistência em uma “falsa simetria” por parte de alguns setores da esquerda se alinha com a retórica do 'Império', em vez de promover a emancipação.







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