Nas últimas eleições, ouvi de um trabalhador uma frase que nunca esqueci. Era uma pessoa que, pela convivência, parecia acompanhar minimamente o que acontecia no país. Por isso, quando começamos a falar sobre as eleições, sua resposta me surpreendeu.

“Não voto para presidente. Não importa quem ganhe. Isso não muda nada na minha vida.”

Nem vou descrever minha decepção.

Mas hoje penso que aquela frase talvez seja muito maior e vá bem além de quem a disse. Porque essas poucas palavras traduziram uma ideia que se espalhou pelo Brasil, a de que política é alguma coisa distante, restrita aos cercadinhos de Brasília, aos partidos, ao Congresso, aos palanques e às disputas entre políticos. Conversa chata.

Como se política não entrasse em nossa casa, não chegasse ao nosso salário, não interferisse na nossa aposentadoria, não determinasse a qualidade da educação – mesmo que privada – ofertada aos nossos filhos, não definisse a qualidade no atendimento à saúde… Como se não ajudasse a definir a nossa vida inteira.

E talvez poucas discussões revelem tão claramente o equívoco daquela frase quanto o debate sobre o fim da escala 6×1.

Afinal, política muda ou não muda a sua, a nossa vida?

Atualmente, o Congresso Nacional discute uma mudança que pode alterar a rotina de milhões de brasileiros e brasileiras.

A PEC 221/2019, aprovada pela Câmara dos Deputados, estabelece jornada máxima de 40 horas semanais, distribuídas em cinco dias, com dois dias de descanso e sem redução salarial. No primeiro turno, foram 472 votos favoráveis e 22 contrários. No segundo, 461 a 19. Uma maioria esmagadora.

No Senado, a proposta também passou pela Comissão de Constituição e Justiça em 2 de setembro e seguiu para o plenário.

Agora voltemos àquela frase: “não importa quem ganhe, isso não muda nada na minha vida”.

Será? Quem transforma uma proposta dessas em realidade?

Deputados. Senadores. Um Congresso inteiro eleito pelo voto popular.

E a Presidência da República também participa do processo político mais amplo. Governo e oposição negociam prioridades, articulam maiorias, defendem ou combatem propostas e definem quais projetos avançam e quais empacam de vez.

Política não é um “conto que se conta e aumenta um ponto”. É vida real, com resultados que impactam gerações.

Política é também decidir se milhões de brasileiras e brasileiros continuarão trabalhando seis dias para descansar apenas um.

Um dia a mais pode até parecer pouco, mas é o dobro do que muita gente tem.

Quem nunca viveu a escala 6×1 talvez olhe para a discussão e pense que estamos falando apenas de acrescentar uma folga na folhinha. Não é somente sobre isso. Estamos falando em um dia a mais de vida. Sim, porque trabalho não é vida. Trabalho é trabalho. Vida é todo o resto.

Quem trabalha seis dias e folga um sabe que, muitas vezes, o chamado “dia de descanso” é tudo, menos descanso. Levante a mão aí quem tem um só dia de folga e consegue fazer dele o que quiser. Não consegue, porque não dá tempo. Quando termina a lista de obrigações que se acumularam durante a semana, termina também o bendito dia de folga.

Dois dias permitem outra organização da existência. Um pode absorver parte das tarefas inevitáveis da vida cotidiana; o outro pode, finalmente, servir para o descanso, a família, o estudo, o lazer e até para maratonar aquela série de que todo mundo está falando.

Pode servir para trabalhar em outra coisa também? Claro que pode. É sobre ter direito à escolha. Você escolhe se vai trabalhar, não o patrão.

E é aí que Flávio Bolsonaro entra nessa história. Entra porque ele é senador, candidato à Presidência da República e participa diretamente dessa discussão. E aqui é importante separar a crítica política de todas as outras aversões que tenho a esse cidadão.

Flávio Bolsonaro apresentou uma alternativa ao modelo aprovado pela Câmara. Em maio, defendeu flexibilizar a legislação para permitir pagamento por hora trabalhada, argumentando que o empregado poderia definir seu período de trabalho. Ou seja, sugeriu a legalização da escala 7×0.

Essa é a posição política dele, na qual seus eleitores irão votar. E, justamente por ser uma posição política, precisa ser debatida.

Porque existe uma diferença profunda entre a Constituição garantir dois dias de descanso ao trabalhador e à trabalhadora, com redução da jornada e manutenção do salário, e responder a essa discussão com a “brilhante ideia” de transformar trabalhadores e trabalhadoras em prestadores de serviço, retirando direitos como descanso remunerado, férias, horas extras e tantas outras garantias conquistadas ao longo de décadas de muita luta.

São modelos diferentes de organização do trabalho que atendem a interesses bem contraditórios. O primeiro beneficia a classe trabalhadora, o segundo privilegia os patrões.

O eleitor tem o direito de saber disso.

Há ainda uma questão particularmente relevante, da qual não podemos nos esquecer. Já candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro foi perguntado diretamente sobre como votaria no Senado em relação ao fim da escala 6×1. Ele se calou.

Ora, essa também é informação eleitoral. Quando alguém pretende governar o Brasil, é perfeitamente legítimo ser perguntado sobre pautas importantes que impactam a vida da população. E é igualmente legítimo que a classe trabalhadora cobre uma resposta.

Curiosamente, nesta semana outra situação me fez pensar sobre tudo isso.

Meu filho foi entrevistado por um canal de televisão na faculdade. Entre as perguntas, fizeram uma sobre a conveniência de divulgar ou discutir nossos candidatos no ambiente de trabalho.

Quando ele me contou, pensei imediatamente em qual seria minha resposta.

Precisamos acabar com esse tabu de que falar de política é feio, inconveniente ou quase uma falta de educação.

Política não é palavrão.

É claro que o ambiente de trabalho exige respeito. Ninguém deveria ser coagido a votar em determinado candidato, sofrer ameaça, assédio eleitoral ou ter sua relação profissional condicionada à escolha política.

Mas isso é completamente diferente de conversar.

No convívio social, formamos opiniões. É natural que conversemos sobre política em casa, na universidade, no sindicato, no bar, na igreja, na associação de moradores e também entre colegas de trabalho.

Podemos falar sobre nossos candidatos, ouvir a opinião dos colegas, saber quais são os candidatos deles, perguntar, discordar, comparar propostas e até mudar de ideia. Isso é democracia.

Democracia não é uma sociedade na qual ninguém discute política para evitar conflito. É uma sociedade na qual pessoas capazes de discordar conseguem continuar conversando mesmo tendo opiniões diferentes.

Talvez seja justamente o silêncio que nos prejudique. Quando transformamos política em assunto proibido, algo curioso acontece: paramos de discutir propostas e começamos a escolher pessoas. O debate sobre jornada de trabalho é um ótimo exemplo de como escapar disso.

Não precisa gostar de Lula. Não precisa gostar de Flávio Bolsonaro. Não precisa gostar de esquerda, direita, centro ou de partido algum para fazer as perguntas certas.

Seu candidato defende dois dias de descanso? Defende a manutenção do salário com a redução da jornada? Se ele já tem mandato, como votou no fim da 6×1?

Essas perguntas – e tantas outras – valem muito mais do que camiseta, bandeira, jingle ou vídeo de campanha.

E, mesmo em meio a muito xingamento, existem argumentos do outro lado. É importante não fingir que o debate econômico não existe.

Parlamentares contrários à mudança e representantes empresariais argumentam que reduzir a jornada mantendo salários pode aumentar o custo da hora trabalhada e atingir de maneira mais intensa empresas com funcionamento contínuo ou pequenas margens. A própria discussão na Câmara incluiu a possibilidade de mecanismos de compensação para empresas.

Esses argumentos devem ser examinados.

Mas também precisam ser confrontados com outra pergunta: “custo para quem?”.

Porque existe um custo que raramente aparece numa planilha empresarial: o tempo do trabalhador. Existe custo no cansaço. Existe custo na ausência de casa. Existe custo quando uma mãe ou um pai quase não vê os filhos acordados. Existe custo quando estudar se torna impossível. Existe custo quando lazer vira luxo. E existe custo quando toda a existência começa a ser organizada apenas em função do trabalho.

Esse custo também faz parte da economia, ainda que seja muito mais difícil colocá-lo numa planilha de Excel.

Portanto, antes de apertar “confirma”, lembre-se de que não estaremos escolhendo apenas nomes. Estaremos escolhendo deputados e senadores que votarão leis. Um presidente que defenderá determinadas políticas e se oporá a outras.

Não é necessário concordarmos sobre qual deve ser a escolha. Mas deveríamos, pelo menos, compreender o que estamos escolhendo. E, tão importante quanto isso, devemos comparecer às urnas e votar, em vez de deixar a decisão exclusivamente nas mãos dos outros.

Converse em casa, com os amigos, com os colegas. Ouça quem pensa diferente. Compare argumentos. Fale e saiba ouvir. Porque é errado pensar que “política não se discute”. Discute-se, sim, como toda ideia importante precisa ser discutida. Com informação, respeito e liberdade de escolha.

Afinal, enquanto alguém diz que política não muda a vida, há políticos decidindo até a qualidade do ar que a gente respira.

Seu voto não decide somente quem terá um “empregão” nos próximos quatro anos. Seu voto ajudará a decidir se você continuará vivendo para trabalhar ou se vai apenas trabalhar para viver.