247 – A cúpula do PL decidiu aproveitar o recrudescimento da crise entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), para intensificar a pressão política sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O objetivo da legenda é antecipar as articulações da sucessão legislativa e inviabilizar a permanência de Alcolumbre no comando da Casa a partir de 2027, informa o jornal O Globo.

Como parte da estratégia, o partido pretende levar o embate diretamente para as campanhas eleitorais deste ano. A direção do PL vai cobrar formalmente de todos os seus candidatos ao Senado o compromisso público de não votar na reeleição de Alcolumbre. A meta é construir antecipadamente uma bancada comprometida com a mudança na presidência da Casa e utilizar a recusa de Alcolumbre em dar andamento aos pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes como um dos principais motes de propaganda eleitoral.

A avaliação dos dirigentes do PL é que o conflito institucional entre Moraes e Mendonça abriu uma janela de oportunidade estratégica. Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) saíram em defesa de Mendonça após o ministro determinar o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O grupo passou a usar a decisão para tentar corroborar suspeitas levantadas contra a cúpula da corporação, ao mesmo tempo em que ampliou a ofensiva verbal contra Moraes e voltou a focar os ataques em Alcolumbre por manter bloqueados os processos contra o magistrado no Senado.

Segundo os cálculos da sigla, a crise permite articular duas bandeiras estratégicas para a reta final do pleito: a ofensiva contra ministros do STF e a promessa de formar uma bancada conservadora capaz de alterar a relação entre o Poder Legislativo e a Suprema Corte. Dentro desse cenário, o presidente do Senado passa a ser retratado pela oposição não apenas como o garantidor da permanência de Moraes, mas como o principal obstáculo para as mudanças institucionais defendidas pelo grupo para 2027.

Reacomodação política e reaproximação com o governo

As movimentações do PL ocorrem em meio a sucessivas guinadas na postura política de Davi Alcolumbre. Após a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF, o presidente do Senado havia se aproximado da oposição e reconstruído canais de diálogo com o grupo que apoia a candidatura de Flávio Bolsonaro.

No entanto, essa reaproximação não derivou em garantias de apoio para a sua permanência no cargo em 2027. Alcolumbre concluiu que o PL e os seus aliados não abririam mão de lançar um nome próprio ou alinhado ao campo da direita para a presidência da Casa. Entre as alternativas cotadas nesse espectro estão o líder da oposição no Senado e coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho (PL-RN), e a senadora Tereza Cristina (PP-MS).

Diante da constatação de que não contaria com os votos do PL para a recondução, Alcolumbre refez suas alianças políticas. O senador voltou a se aproximar do presidente Lula (PT) e passou a buscar na base governista a sustentação política que perdeu no campo da oposição.

Com isso, a nova crise entre os ministros do Supremo encontra Alcolumbre e a bancada do PL em posições opostas. Enquanto os bolsonaristas veem no episódio um trunfo para desgastar a imagem do presidente do Senado e preparar sua substituição, o parlamentar do Amapá atua sabendo que terá de viabilizar sua candidatura sem o apoio do maior partido de oposição.

Pressão nos palanques e resistência no Senado

A investida do PL acontece em um momento no qual Alcolumbre tenta contornar a crise do Judiciário para que ela não contamine as atividades do Senado antes das eleições. Durante o fim de semana, o presidente da Casa permaneceu em Brasília e esteve reunido com líderes partidários, ocasião em que sinalizou que não pautará nenhuma matéria relativa aos ministros do STF antes do primeiro turno.

Alcolumbre também deixou claro que continuará resistindo à abertura de processos de impeachment contra Alexandre de Moraes. A interlocutores, o senador indicou que, se a pressão da oposição pelo afastamento de Moraes continuar escalando, ele poderá pautar como resposta um pedido contra André Mendonça. A sinalização foi interpretada pelos líderes como um recado de que o comando da Casa não aceitará que as ações do Senado sejam direcionadas exclusivamente contra um dos lados da disputa no STF.

Apesar da resistência, o PL pretende levar o tema para o debate de rua, exigindo uma tomada de posição dos candidatos ao Senado e transformando a eleição para a presidência da Casa em tema central da campanha. A aposta da legenda é que, com duas vagas em disputa por estado nesta eleição, a ampliação da bancada de direita permitirá criar as condições políticas necessárias para derrotar Alcolumbre na votação marcada para fevereiro de 2027.