247 – A Procuradoria-Geral da República (PGR) informou ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que abriu uma apuração sobre possível interferência na elaboração do relatório da Polícia Federal (PF) que apontou uma relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso na Operação Compliance Zero. O teor da decisão foi publicado no Portal G1. 

O relatório foi produzido a pedido do ministro André Mendonça, também do STF, que retirou o sigilo do material na terça-feira (1º). O caso, antes relatado por Mendonça, agora está sob a condução de Fachin.

“Informo a Vossa Excelência que, na forma do despacho que encaminho, determinei a instauração de Procedimento de Controle Externo da Atividade Policial, resultado será, em tempo adequado, noticiado à Corte”, escreveu o procurador-geral da República, Paulo Gonet, também citado no relatório.

A PGR afirmou que a PF terá de prestar esclarecimentos sobre a elaboração do documento, inclusive “quanto a possível ocorrência de ordem ou interferência externa em sua elaboração, que tenha maculado seu conteúdo”.

A medida integra o controle externo da atividade policial, atribuição do Ministério Público Federal. Gonet respondeu a uma determinação de Fachin para apresentar informações sobre a produção do material.

PGR diz que não foi ouvida

A Procuradoria-Geral da República afirmou que não recebeu comunicação sobre a determinação de Mendonça que levou à produção do relatório da PF.

“No trâmite analisado, não foi dado espaço à manifestação da Pocuradoria-Geral da República. Ao revés, a decisão proferida nos autos da Petição n. 15.556/DF foi ocultada do Ministério Público, que foi assim impedido de realizar o necessário controle externo da atividade policial, etapa essencial a qualquer investigação”, afirmou.

Após retirar o sigilo do relatório, Mendonça também determinou que a PGR apresentasse parecer sobre o caso. Gonet afirmou que a investigação é nula e não poderia ter ocorrido sem pedido do Ministério Público ou da própria PF.

O relatório divulgado expõe mensagens e contatos entre Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e Alexandre de Moraes. Moraes, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral Paulo Gonet aparecem citados por Vorcaro em mensagens obtidas no celular do banqueiro.

Trocas de mensagens entre Moraes e Vorcaro indicam, segundo o material, que o ministro discutia com o ex-dono do Banco Master a possibilidade de a PF deflagrar uma operação contra o banqueiro.

Mendonça sugeriu, na mesma decisão, que o plenário do STF avaliasse os elementos constantes nos relatórios da PF.

Encontros citados no documento

O relatório da PF lista conversas que indicariam compromissos pessoais, reuniões em residências privadas e eventos no Brasil e no exterior.

Em 13 de março de 2024, Fábio Faria e Vorcaro trataram do agendamento de uma conversa para “tomar um whisky” com Moraes, citado como “Alex”, no início da noite. O encontro acabou remarcado por conflito com a agenda de Vorcaro.

Em 17 de abril de 2024, Faria pediu o endereço da residência de Vorcaro em Brasília, no Lago Sul, para repassar a “Alex”, dizendo que apagaria as mensagens em seguida. Em 17 de julho de 2024, mensagens de Fábio Faria confirmaram um encontro com “Alexandre”, também chamado de “Careca”, por volta das 19h30.

Em 5 de novembro de 2024, Vorcaro relatou à filha: “To com alexandre moraes”. Em 26 de fevereiro de 2025, um motorista de Vorcaro em Brasília avisou ao empresário que o “Min Alexandre chegou” à residência.

Em 19 e 20 de março de 2025, Vorcaro disse à namorada e a um diretor do Banco Central que estava reunido com o ministro. Segundo a PF, o encontro avançou pela madrugada do dia 20, com a chegada de parlamentares e lideranças políticas à residência.

Em 19 de abril de 2025, Vorcaro informou que estava saindo para encontrar Alexandre de Moraes durante o feriado, em local próximo à sua casa. O relatório indica que o encontro ocorreu na região de Campos do Jordão, em São Paulo.

Em 29 de abril de 2025, o banqueiro voltou a relatar à namorada que estava reunido com “alexandre”. Em 21 de maio de 2025, afirmou estar em casa com “Ciro e alexandre”. Em 8 de agosto de 2025, disse que deixaria de viajar naquele dia porque estava “c alexandre” antes de uma reunião com Ciro.

Eventos e viagens

O relatório da PF também descreve mensagens sobre eventos internacionais, especialmente o Fórum Jurídico de Londres, realizado em abril de 2024 e patrocinado pelo Banco Master. O documento cita ainda tratativas preliminares para uma edição em 2025, depois cancelada.

Nas conversas anexadas ao inquérito, assessores e interlocutores discutem convites a autoridades, programação de painéis, logística de transporte para ministros do STF e sugestões sobre a cobertura das atividades.

Os diálogos constam de relatório enviado pela PF ao STF, com sigilo retirado por André Mendonça. O material também seguiu para manifestação da PGR.