A disputa eleitoral contemporânea é profundamente influenciada por algoritmos, redes coordenadas, publicidade digital e inteligência artificial, que reconfiguram a circulação de informações políticas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem exigido maior transparência das plataformas digitais quanto a mecanismos de recomendação, moderação e impulsionamento de conteúdo. Contudo, grande parte dessa infraestrutura permanece sob controle privado, com auditoria limitada.
As eleições acontecem nas urnas, mas uma parte significativa da circulação política se desenrola muito antes do voto. Em 14 de agosto, o X (antigo Twitter) implementou uma alteração em seu sistema de recomendações, nomeada Brazil2026ElectionFilter. O objetivo era evitar que publicações de contas oficiais de candidatos aparecessem no feed “Para Você” de usuários que não as seguiam. Embora os posts continuassem disponíveis, a mudança reduzia a chance de encontrá-los sem uma busca ativa.
Desafios na Execução das Normas Eleitorais
A Justiça Eleitoral determinou que contas de candidatos ficassem fora das recomendações para diminuir vantagens indevidas. O X incorporou essa regra. No entanto, uma investigação da Folha de S.Paulo e do Sleeping Giants Brasil identificou mais de 1.400 perfis de candidatos que não estavam sujeitos ao filtro, levando a empresa a expandir a lista para quase 2.400 contas. Falhas também foram atribuídas a inconsistências nos cadastros da Justiça Eleitoral, beneficiando candidatos de diversos partidos. Este episódio demonstrou que a execução de uma regra eleitoral pode ser fragilizada por bancos de dados e códigos administrados por empresas privadas, gerando efeitos desiguais sem intenção partidária explícita.
O TSE reconheceu essa nova realidade ao editar a Portaria 463, que obriga as grandes plataformas a detalhar os sinais usados para ordenar, recomendar, reduzir a distribuição ou limitar conteúdo político-eleitoral. A norma também exige informações sobre moderação, publicidade, redes coordenadas, inteligência artificial e alcance. A Justiça Eleitoral busca, assim, entender os mecanismos que determinam o alcance de uma publicação, não apenas o conteúdo em si.
Incidentes e Poder das Plataformas
Pouco antes do primeiro turno, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva teve seu acesso temporariamente bloqueado a uma ferramenta de publicidade no Facebook. A Meta desabilitou a conta usada para anúncios, que foi reativada no mesmo dia após recurso. O incidente evidencia o poder das plataformas privadas em interromper ferramentas essenciais de campanha, mesmo que a decisão não possa ser atribuída a uma intenção política específica. A falta de transparência sobre as razões do bloqueio destaca a necessidade de maior visibilidade sobre os processos internos dessas empresas.
No Instagram, a Corregedoria-Geral Eleitoral iniciou um processo contra Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar e Mario Frias para investigar uma possível rede coordenada de contas que utilizava publicações em coautoria (collabs). A Justiça Eleitoral buscou dados da plataforma para reconstruir a fronteira entre mobilização política espontânea e coordenação sistemática. Outro teste, realizado pela organização Eko, revelou que treze de quinze anúncios eleitorais experimentais com conteúdo problemático (incluindo IA não identificada, informações falsas e pedido de voto com figuras políticas) conseguiram passar pela primeira etapa de aprovação da Meta, evidenciando falhas nas barreiras de moderação.
Dados de gastos com impulsionamento e interações nas redes sociais mostram que diferentes campanhas utilizam intensivamente as plataformas. Lula foi o candidato presidencial que mais investiu em impulsionamento na Meta em um período analisado, e Flávio Bolsonaro também foi alvo de operações digitais. Esses dados indicam que redes coordenadas, conteúdo sintético e a exploração agressiva das plataformas não são exclusividade de um único grupo político. Contudo, esses números não tornam as plataformas neutras, mas impedem que se confunda resultado com causa. O sistema de recomendação adiciona uma variável decisiva e menos visível ao alcance do conteúdo.







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