A extrema direita manifesta um comportamento que aparenta ser radical ao atacar a democracia e suas instituições. No entanto, essa suposta postura rebelde é vista como enganosa. Seus líderes se posicionam como adversários do sistema, desdenhando as instituições da República, desafiando o Poder Judiciário e interpretando quaisquer limites constitucionais como impedimentos à vontade popular ou à 'liberdade de expressão'.
Contrariamente à percepção de rebeldia, a extrema direita, na realidade, não se opõe ao sistema. Ela atua para manter as dimensões mais desiguais, autoritárias e desumanas. Seu radicalismo se esvai onde começam os interesses do capital. Ela investe contra tribunais, parlamentos, universidades, sindicatos, movimentos sociais e serviços públicos, mas evita o confronto com bancos, conglomerados financeiros, plataformas digitais, monopólios econômicos ou a concentração de propriedade. Inclusive, defendem de maneira enfática o sistema imperialista liderado pelos Estados Unidos.
A retórica e a prática da extrema direita
Embora afirme combater as elites, a extrema direita ataca professores, artistas, cientistas, servidores públicos e organizações populares. Declara defender a liberdade, mas persegue opositores, ataca a imprensa e ameaça as instituições. Proclama-se defensora do povo, porém apoia políticas que retiram direitos, precarizam o trabalho e aumentam a concentração de riqueza. Seu discurso é radical contra direitos sociais, mas demonstra complacência com o poder econômico.
As instituições democráticas, em uma sociedade com classes sociais antagônicas, não são perfeitas. O Poder Judiciário e os demais poderes devem ser fiscalizados e questionados. No entanto, existe uma distinção crucial entre criticar uma decisão judicial e organizar uma campanha para deslegitimar o próprio Judiciário. A crítica democrática busca aprimorar as instituições, enquanto o autoritarismo visa intimidá-las, neutralizá-las e, se possível, destruí-las.
A história das conquistas sociais e a desumanização
A democracia e o Estado de Direito são construções históricas, moldadas por conflitos e lutas sociais. No capitalismo, a organização política dos trabalhadores foi crucial para limitar a exploração. Conquistas como redução da jornada, férias, previdência e direito à sindicalização não foram concessões, mas resultados de greves e mobilizações. O capital, focado na acumulação, vê a proteção ao trabalhador como custo, o que demonstra que a humanização das relações de produção é fruto de luta política.
Contudo, nenhuma conquista social é definitiva. No século XXI, ofensivas contra os direitos sociais assumiram novas formas. A financeirização subordina a economia à rentabilidade imediata, com a riqueza financeira crescendo enquanto a produção estagna e empregos desaparecem. Nesse cenário, direitos trabalhistas são desqualificados e trabalhadores são renomeados para mascarar a exploração. A "modernização" do trabalho pode significar o retorno a formas arcaicas de desproteção, com tecnologias avançadas ocultando relações de produção primitivas.
Para que esse retrocesso seja aceito, há uma desumanização das classes trabalhadoras: o desempregado é taxado de preguiçoso, o pobre de ameaça, o servidor público de parasita. O capital e a extrema direita culpam as vítimas das desigualdades, enquanto os verdadeiros beneficiários da concentração econômica são ignorados no debate público. A violência simbólica é sempre direcionada "para baixo", revelando a função política do discurso da extrema direita. Seu falso radicalismo oferece inimigos imaginários, desviando a atenção das estruturas de exploração e desigualdade. Ataques ao Judiciário surgem da recusa em aceitar limites, e a democracia é aceita apenas quando produz o resultado desejado. Defender a democracia não significa aceitar sem críticas a ordem existente, mas sim buscar sua ampliação e transformação.







Comentários
Seja o primeiro a comentar.