Por conta dos últimos acontecimentos, tornou-se difícil acompanhar a política brasileira sem reconhecer uma sensação de inquietação que atravessa o debate público. O cenário parece impor um diagnóstico incômodo: há algo profundamente fora do lugar na forma como o país tem vivido seus conflitos políticos. Talvez a imagem mais perturbadora esteja justamente no Supremo Tribunal Federal.

A crise que hoje envolve os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça não é apenas mais um episódio de divergência entre autoridades públicas. Ela revela algo maior: o momento em que o conflito político, depois de atravessar partidos, eleições, redes sociais, famílias e instituições, chega ao próprio lugar que deveria funcionar como um dos principais espaços de arbitragem dos conflitos democráticos.

Quando a disputa deixa de estar apenas entre adversários políticos e passa a envolver os próprios árbitros institucionais, a pergunta já não é somente quem tem razão. A pergunta passa a ser outra, muito mais incômoda: quem ainda é capaz de mediar o conflito? Desde o fim da disputa estruturante entre PT e PSDB e a ascensão de uma política marcada pela negação da própria política, acompanhar o Brasil tornou-se um exercício estranho.

Em meio a uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, já não é simples distinguir o que pertence ao roteiro mirabolante de uma série política e o que, de fato, ocorre diante dos nossos olhos. Os fatos se acumulam no ritmo de uma montanha-russa, rápidos demais até para serem plenamente compreendidos. A atual crise no STF acrescentou uma camada nova a esse processo.

As divergências entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, que ganharam nova dimensão a partir das investigações envolvendo o Banco Master e das acusações relacionadas à condução desses procedimentos, expõem uma tensão que ultrapassa a simples discordância jurídica. De um lado, há questionamentos sobre a atuação de Mendonça na condução das investigações. De outro, há questionamentos sobre fatos envolvendo Moraes e suas relações com pessoas alcançadas pelas investigações.
O presidente do Supremo, Edson Fachin, foi colocado no centro institucional desse conflito ao receber pedidos e determinar esclarecimentos dos envolvidos. É importante não transformar acusações em condenações. A gravidade do episódio está justamente em outra coisa: a confiança institucional passa a ser disputada dentro da própria instituição. Para quem acompanha a política brasileira, talvez seja esse o aspecto mais inquietante do momento.

Não se trata apenas de uma disputa sobre decisões, interpretações jurídicas ou posições divergentes dentro de um colegiado. Quando ministros de uma mesma Corte passam a questionar publicamente a atuação um do outro e o próprio funcionamento de procedimentos conduzidos no âmbito do Tribunal, a crise deixa de ser apenas um conflito entre pessoas e passa a produzir efeitos sobre a percepção pública da instituição.

É impossível negar que, para quem estuda e gosta de política, o momento é intelectualmente extraordinário. Há ali um ambiente raro de análise: conflitos, tensões institucionais, disputas narrativas, rearranjos de poder e inúmeras possibilidades de construção de cenários. Qualquer cientista político reconheceria nesse quadro um campo fértil para reflexão. Mas essa fertilidade analítica não traz alívio.

Ao contrário, reforça o desconforto de observar uma crise que produz conhecimento ao mesmo tempo que aprofunda feridas sociais e amplia a sensação de que as próprias instituições que deveriam administrar os conflitos estão sendo progressivamente absorvidas por eles. A sensação que acompanha esse processo aproxima-se da inquietação de um médico diante de um paciente que chega ao hospital com sinais de um trauma complexo.

Não se trata de um corte superficial, daqueles que podem ser rapidamente limpos e suturados; tampouco de uma doença terminal. A imagem mais adequada talvez seja a de uma fratura mal consolidada, que atravessa músculos, nervos e articulações e exige tempo, cuidado e paciência para cicatrizar, não sem dor. O problema é que, desta vez, parece haver uma dificuldade adicional: o próprio sistema encarregado de diagnosticar algumas das doenças institucionais do país apresenta sinais de inflamação.

Intelectual e profissionalmente, observar esse processo é desafiador. Mas emocionalmente é perturbador. O mal-estar talvez venha justamente daquilo que a ciência política costuma fazer melhor: transformar a realidade em objeto de análise. A política pode ser estudada, comparada, medida e interpretada, mas a política real não é um laboratório. Ela não é uma experiência controlada na qual conceitos são testados sem consequências humanas.

Mas países não são laboratórios, e o que se vive no Brasil não é uma tese acadêmica ou um experimento. A política brasileira não é apenas um conjunto de dados a ser organizado em tabelas. Em cada ângulo dessa crise há impacto sobre pessoas reais, com suas convicções e crenças, que vivem amizades estremecidas, famílias divididas e conversas interrompidas em mesas de bar e de jantar. Talvez exista algo ainda mais grave.

Quando a desconfiança alcança as instituições, ela não permanece confinada ali. Desce pelas escadas da democracia e chega à sociedade. As pessoas passam a interpretar cada decisão, cada investigação e cada pronunciamento não apenas pelo seu conteúdo, mas pela identidade de quem o produz e pelo lado político que imaginam estar sendo favorecido. A partir daí, a disputa pela verdade passa a ser substituída pela disputa sobre quem tem autoridade para defini-la, e o espaço público vai se tornando progressivamente incapaz de produzir algum consenso.

Parafraseando uma frase conhecida de Darcy Ribeiro sobre a educação brasileira, poderíamos dizer que a crise política no Brasil talvez não seja apenas uma crise; em muitos aspectos, parece também um projeto. E talvez por isso mesmo não seja de solução simples. Nos últimos anos, algo se rompeu na vida pública do país. Não apenas institucionalmente, mas sobretudo socialmente.

Rompeu-se um certo pacto implícito que, durante décadas, permitiu que diferenças políticas profundas coexistissem dentro de um mesmo horizonte democrático, ainda que sob tensão, disputa e conflito. Essa ruptura não surgiu de repente. As manifestações de 2013 expuseram um mal-estar difuso com o funcionamento da política institucional. A crise econômica que se seguiu corroeu expectativas sociais e ampliou frustrações.

Os escândalos de corrupção ampliaram a desconfiança em relação ao sistema político como um todo. O impeachment de 2016 transformou divergências políticas em identidades antagonistas, e a eleição de 2018 consolidou uma lógica de confronto permanente que passou a organizar o debate público. O que antes podia ser compreendido como disputa entre diferentes projetos de país passou, pouco a pouco, a adquirir a forma de uma disputa sobre o próprio país que cada lado acreditava estar defendendo.

Pouco a pouco, a política deixou de ser apenas uma disputa por projetos de governo e passou a funcionar como um marcador de identidade. O adversário deixou de ser alguém com quem se disputa o poder dentro de regras compartilhadas e passou a ser percebido como uma ameaça existencial. Nesse ambiente, o diálogo deixa de ser apenas difícil e passa a ser quase impossível.

As redes sociais amplificaram esse processo, transformando divergências em trincheiras e opiniões em bandeiras de guerra. Cada acontecimento passou a ser imediatamente incorporado a narrativas já construídas, nas quais os fatos raramente conseguem modificar aquilo que os grupos já acreditavam antes de conhecê-los. A cada novo episódio da vida política nacional, o país parece se dividir novamente em campos opostos que já não se escutam.

Cada lado constrói sua própria narrativa, seus próprios heróis e seus próprios vilões. A fratura atravessa a sociedade inteira. Passa pelas universidades, pelos sindicatos, pelas igrejas, pelos quartéis, pelos grupos empresariais, pelos movimentos sociais e pelas famílias. O que talvez seja mais preocupante é que essa fratura passou também a alcançar as instituições que deveriam funcionar como espaços de contenção e mediação dos conflitos.

E é nesse sentido que a atual crise no Supremo ganha uma dimensão que ultrapassa a disputa específica entre seus ministros. O Supremo Tribunal Federal não é apenas mais uma instituição disputando espaço no debate político. Sua função é, entre outras, interpretar a Constituição, proteger direitos e arbitrar conflitos dentro das regras constitucionais. Quando a própria Corte aparece mergulhada em um conflito interno de tamanha intensidade, a consequência não é apenas uma disputa entre ministros.

É uma disputa que pode atingir a percepção pública sobre a própria capacidade de arbitragem das instituições. Não é necessário escolher previamente um lado para perceber a gravidade disso, assim como não é necessário transformar qualquer dos envolvidos em culpado ou inocente antes que os fatos sejam devidamente esclarecidos.

É possível defender a necessidade de investigar qualquer autoridade pública e, ao mesmo tempo, exigir que investigações envolvendo ministros do Supremo observem rigorosamente as regras de competência, imparcialidade e devido processo. É possível reconhecer a importância do STF para a democracia e, simultaneamente, exigir transparência, limites institucionais e mecanismos de controle. É possível discordar profundamente de Alexandre de Moraes sem transformar toda a sua atuação em uma conspiração.

Da mesma forma, é possível discordar profundamente de André Mendonça sem transformar toda investigação conduzida sob sua relatoria em uma tentativa de perseguição. A democracia exige justamente essa capacidade incômoda de sustentar ideias que, em tempos de polarização, parecem incompatíveis. O problema é que o debate público brasileiro parece ter perdido essa capacidade. O debate que deveria ser espaço de mediação democrática tornou-se frequentemente um campo de acusação permanente.

Nesse ambiente, fatos são selecionados de acordo com o lado que podem favorecer. A mesma decisão pode ser celebrada como defesa da democracia por uns e denunciada como autoritarismo por outros. Uma investigação pode ser vista como instrumento legítimo de responsabilização ou como mecanismo de perseguição, dependendo de quem está sendo investigado.

A realidade desaparece entre duas narrativas que já chegam prontas, e cada novo acontecimento serve menos para produzir reflexão do que para confirmar aquilo que cada grupo já acreditava. Talvez seja esse o maior perigo. Não que brasileiros discordem, porque democracias precisam da discordância. Não que ministros discordem entre si, porque tribunais democráticos precisam de divergências. E não que instituições sejam criticadas, porque instituições democráticas precisam ser criticadas.

O perigo começa quando ninguém mais reconhece legitimidade na razão do outro; quando toda crítica é tratada como ataque, toda investigação é interpretada como perseguição e toda divergência é convertida em guerra. É nesse ponto que a crise institucional se transforma em crise de confiança, e crises de confiança são particularmente difíceis de tratar porque não se resolvem apenas com decisões jurídicas: exigem reconstrução de legitimidade.

Talvez seja por isso que a atual crise do STF seja maior do que a disputa entre dois ministros. Moraes e Mendonça são personagens centrais do episódio, mas não são necessariamente sua explicação. A questão mais profunda é saber se as instituições brasileiras ainda conseguem produzir decisões que sejam reconhecidas como legítimas também por aqueles que delas discordam.

Essa é uma pergunta muito mais difícil do que descobrir quem venceu determinado embate, porque uma democracia não pode depender da vitória permanente de um lado. Ela precisa sobreviver à derrota de todos os lados e, sobretudo, preservar regras que continuem sendo reconhecidas como legítimas quando o resultado não corresponde às expectativas de quem está no poder.

Há situações em que a convivência no mesmo ambiente amplia a tensão em vez de reduzi-la. Democracias sobrevivem de conflito, mas também de regras que permitem administrar esse conflito. Quando essas regras deixam de ser reconhecidas por todos, o sistema inteiro começa a ranger. Hoje, o Brasil parece viver exatamente esse momento delicado. Não se trata de um país condenado, nem de um colapso inevitável. Mas é, sem dúvida, um país ferido, uma sociedade que carrega uma fratura política e moral que ainda não conseguiu cicatrizar.

Fraturas podem se curar. O corpo humano é extraordinário nesse sentido. Ossos quebrados podem se recompor, tecidos lesionados podem se regenerar, mas nenhum processo de cura acontece sem diagnóstico. É preciso reconhecer a lesão. Isso significa admitir que a crise brasileira não é monopólio de um único partido, de um único líder ou de um único campo ideológico. Ela atravessa o sistema político inteiro. Envolve erros acumulados, ressentimentos sociais, falhas institucionais e também uma profunda transformação na forma como as pessoas se informam e se relacionam com a política. Curar uma fratura exige imobilização, tempo e cuidado; no campo político, talvez exija sobretudo recuperar a capacidade de reconhecer limites e reconstruir confiança.

Talvez o equivalente político disso seja algo mais raro: reconstruir a capacidade de escutar. Escutar o adversário, escutar a crítica, escutar a instituição e escutar os limites do próprio poder. Escutar, sobretudo, aquilo que o outro diz quando temos certeza de que ele está errado. Isso não significa concordar, abdicar de convicções ou relativizar responsabilidades.

Significa reconhecer que, em uma democracia, o outro não é um inimigo a ser eliminado, mas alguém que participa do mesmo espaço político e que, em algum momento, poderá ocupar o lugar que hoje ocupamos. Parece pouco, mas, no Brasil de hoje, talvez seja uma das tarefas políticas mais difíceis e mais necessárias. Talvez seja essa a reflexão que atravessa minhas noites mal dormidas. Não o fascínio acadêmico diante de um objeto complexo, mas a inquietação de quem percebe que a política, quando perde a capacidade de mediar conflitos, transforma-se em algo muito mais perigoso.

O Brasil talvez não esteja diante de uma doença terminal, mas também não pode continuar tratando uma fratura exposta como se fosse apenas mais uma divergência. A crise entre Moraes e Mendonça é um episódio; a crise de confiança nas instituições é algo maior. E talvez o verdadeiro desafio brasileiro seja descobrir se ainda somos capazes de distinguir uma coisa da outra.

Uma democracia não precisa de um país que concorde. Precisa de um país que consiga continuar se escutando quando discorda. Precisa de instituições capazes de suportar o conflito sem se confundirem com ele e de cidadãos capazes de defender suas convicções sem transformar o adversário em inimigo. Talvez seja justamente isso que estamos perdendo. E talvez seja por isso que o título deste texto não seja apenas uma constatação, mas também uma pergunta: ainda somos capazes de escutar o Brasil antes que a fratura se torne permanente?