Nesta quarta-feira (2), autoridades da Noruega apreenderam o navio científico russo Professor Molchanov, que estava atracado em Barentsburg, um assentamento russo no arquipélago de Svalbard, no Ártico. A medida foi tomada em resposta a uma decisão judicial obtida pela empresa estatal de energia ucraniana Naftogaz. A apreensão, confirmada pelo governador de Svalbard, segue uma ordem emitida em 31 de agosto pelo Tribunal Distrital de Nord-Troms e Senja, que impede a embarcação de deixar o porto.

O caso se insere em uma escalada de disputas internacionais sobre propriedades estatais russas, em meio ao aumento das tensões entre Moscou e membros da OTAN na região ártica. Segundo relatos de um correspondente da agência russa TASS, passageiros e tripulantes teriam sido informados da apreensão por meio de notícias na imprensa. O ministro russo para o Desenvolvimento do Extremo Oriente e do Ártico, Aleksey Chekunkov, garantiu que os ocupantes estão seguros, e advogados da fundação Arktikugol planejam contestar a decisão judicial norueguesa.

Impacto logístico da apreensão

O Professor Molchanov, propriedade do Estado russo e operado pelo serviço nacional de hidrometeorologia Roshydromet, embora inicialmente voltado para missões científicas, assumiu um papel logístico estratégico para a presença russa em Svalbard. Desde 2025, o navio realiza viagens regulares de passageiros e cargas entre Murmansk, na Rússia continental, e Barentsburg. Ele transporta cientistas, funcionários da estatal Arktikugol, trabalhadores e suprimentos essenciais para os assentamentos russos no arquipélago, já que as conexões aéreas diretas entre a Rússia e Svalbard foram suspensas em 2020 e o transporte marítimo regular só foi retomado cinco anos depois.

A embarcação é atualmente a única a manter essa ligação marítima direta, o que torna sua apreensão de grande impacto prático. Para 2026, estavam previstas dez viagens de ida e volta. A presença estrangeira em Svalbard é regulada pelo Tratado de Svalbard de 1920, que reconhece a soberania norueguesa, mas concede direitos a países signatários para atividades econômicas e científicas na região. A Rússia mantém operações nas ilhas há décadas, com a Arktikugol como sua principal estrutura econômica local.

Disputa por ativos e reações de Moscou

A Naftogaz busca executar no exterior uma sentença arbitral relacionada a ativos que a empresa ucraniana alega ter perdido na Crimeia após a anexação da península pela Rússia em 2014. Moscou contesta a validade do procedimento e a jurisdição do tribunal arbitral, argumentando que os bens não poderiam ser classificados como investimentos ucranianos em território russo. A Naftogaz reivindica cerca de US$ 4,22 bilhões, além de juros e despesas judiciais. O chefe interino da estatal ucraniana, Sergey Fedorenko, celebrou a decisão norueguesa como um “passo importante para restaurar a justiça”. A empresa tem buscado bloquear ativos russos em diversos países, tendo conseguido, em 2024, o congelamento de propriedades russas na Finlândia.

O Kremlin e o Ministério das Relações Exteriores da Rússia consideram tais medidas ilegítimas, com o presidente Vladimir Putin as classificando como “pirataria e roubo”. Putin alertou que Moscou poderia adotar medidas equivalentes contra interesses de países envolvidos. Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores, declarou que a Rússia escolherá seus próprios alvos caso apreensões de embarcações russas se tornem sistemáticas. A situação agrava a disputa geopolítica pelo Ártico, uma região com rotas marítimas, recursos naturais e instalações militares estratégicas. Lavrov acusou países da OTAN de tentarem transformar o Ártico em uma “nova frente” contra a Rússia, aumentando exercícios militares e expandindo estruturas de comando perto das fronteiras russas, o que ele vê como um risco para confronto armado. Moscou afirma que protegerá seus interesses “por todos os meios disponíveis” se considerar que está sendo alvo de ações hostis, embora pretenda preservar o Ártico como espaço de cooperação.