A inteligência artificial não reside em um ambiente etéreo, mas ocupa espaço físico, consome eletricidade, gera calor e requer infraestrutura de rede robusta. Diante dessa realidade, surge o debate sobre quem arcará com os custos de implantação e manutenção desses equipamentos e quais serão os benefícios para as comunidades que os abrigam.

Uma pesquisa do Fórum Econômico Mundial, divulgada em 22 de setembro, aponta que economistas-chefes esperam que os data centers contribuam para o crescimento, mas também preveem pressão sobre os serviços públicos, poucos empregos diretos e resistência das populações locais. Contudo, essa perspectiva não é uma regra imutável e pode variar entre diferentes países e projetos.

Custos de energia e impacto ambiental

A demanda por energia elétrica já está em ascensão por uma variedade de motivos, incluindo maior conforto residencial, mobilidade elétrica e serviços digitais. A Agência Internacional de Energia estima que os data centers serão responsáveis por cerca de 10% do crescimento global do consumo elétrico até 2030, uma fatia significativa, mas menor do que a de setores como motores industriais e climatização. Atribuir o aumento da conta de luz exclusivamente à IA seria uma simplificação inadequada.

É crucial diferenciar entre o aumento do consumo por parte de uma família, que gera mais conforto, e o aumento do preço do quilowatt-hora, influenciado por custos de geração, rede, encargos e tributos. Denominar todos esses fatores como "efeito dos data centers" mascara decisões de política energética e distribuição de custos que deveriam ser transparentes.

Localização, recursos e empregos

Uma instalação de grande porte mal localizada pode competir por capacidade elétrica e água com a população local. A expansão da rede para atendê-la não deve ser repassada indiscriminadamente aos consumidores residenciais sem a devida demonstração de benefícios. O cenário pode ser diferente quando o empreendedor arca com os custos da infraestrutura, investe em geração renovável adicional e se instala em locais com capacidade existente.

A gestão da água também exige rigor. Um circuito fechado em data centers não garante consumo hídrico zero, sendo fundamental considerar a forma de rejeição de calor. Em regiões de escassez, a escolha da localização e da tecnologia de refrigeração deve ser transparente, com divulgação de dados sobre captação, consumo, origem da água e desempenho verificado. Quanto aos empregos, data centers não são comparáveis a fábricas em termos de mão de obra direta, mas seu valor potencial reside na construção, em serviços especializados e no desenvolvimento regional de pesquisa, formação e aplicações de IA.

Engajamento comunitário e benefícios equitativos

A resistência das comunidades não pode ser ignorada como mero receio do progresso. Uma pesquisa da Universidade da Pensilvânia revelou que 61% dos adultos consultados nos EUA se opõem à instalação de data centers próximos, indicando que as pessoas percebem quando os custos são locais e os benefícios, distantes. Reprimir data centers sem critério pode apenas transferir o consumo de energia, impactos e oportunidades para outras regiões.

A solução passa por estabelecer condições claras para a instalação dessas infraestruturas: planejamento de conexão, atribuição justa dos custos de expansão, uso progressivo de energia de baixa emissão, metas auditáveis de eficiência elétrica e hídrica, participação comunitária desde o início e contrapartidas proporcionais e verificáveis. Dessa forma, um data center pode se tornar um parceiro na expansão da infraestrutura local, em vez de um mero consumidor de recursos, garantindo que o futuro dos data centers seja construído em benefício das comunidades vizinhas, e não à sua custa.