A presidente do Peru, Keiko Fujimori, anunciou nesta terça-feira (22) que o país aderiu ao Escudo das Américas, durante discurso na 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York. A iniciativa, promovida pelo governo dos Estados Unidos, foi apresentada como mecanismo de coordenação regional contra o crime organizado transnacional. Fujimori também defendeu que essas organizações sejam legalmente classificadas como grupos terroristas.

Discurso de Fujimori

Em sua fala, a presidente afirmou que o Peru enfrenta “outro tipo de guerra” contra organizações criminosas transnacionais, descritas como “inimigos do Estado democrático”. Ela sustentou que, se essas organizações forem enquadradas como terroristas, as Forças Armadas e a Polícia Nacional poderão atuar contra o que chamou de “ameaça à ordem interna”. Foram citados crimes como narcotráfico, extorsão, tráfico de pessoas e mineração ilegal.

Fujimori não detalhou quais garantias seriam aplicadas em eventuais operações militares nem como evitar o uso ampliado da classificação de terrorismo. Durante a intervenção, ela também disse que seu governo “não vai recuar diante daqueles que pretendem impor o terror sobre a lei”.

Reações ao anúncio

Especialistas ouvidos pela teleSUR criticaram o projeto. Segundo eles, o Escudo das Américas serviria para alinhar os países participantes aos interesses estratégicos dos EUA e afastar concorrentes não hemisféricos, como a China. O analista político Ramón Méndez classificou a iniciativa como “uma fachada para continuar com a Doutrina Monroe”.

O anúncio ocorre após o Peru integrar o Grupo de Santiago, mecanismo coordenado pelo Chile e composto também por Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai e Uruguai. Fujimori afirmou que foi um “erro” tratar o crime organizado de forma isolada em cada país, mas não explicou se a resposta viria por cooperação entre os Estados latino-americanos ou por uma estrutura ligada a Washington.

Organizações políticas, culturais e sociais do Peru manifestaram oposição à adesão. A Coordenadoria Internacionalista de Solidariedade (CIS) acusou a Casa Branca de usar a segurança para ampliar influência política e militar no continente. Em manifesto, as entidades afirmaram que agências como DEA, FBI e CIA seriam usadas como instrumentos de influência, e que o que interessa aos EUA são riquezas naturais peruanas, como biodiversidade, água da Amazônia, terras raras, lítio, petróleo, ouro e cobre.

O documento também sustenta que o Escudo das Américas busca vincular a política externa peruana à estratégia de Washington contra Irã e Palestina, além de aprofundar o bloqueio a Cuba e aumentar a pressão sobre Venezuela e Nicarágua. Entre os signatários estão o ex-chanceler Héctor Béjar, a ex-ministra da Mulher Aída García Naranjo, o ex-conselheiro presidencial Alberto Adrianzén, o líder social Ricardo Gadea e o poeta Hildebrando Pérez. O manifesto recebeu apoio de mais de 30 organizações sociais e coletivos culturais.