247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a Nova York na noite deste domingo (20) para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas, onde abrirá o debate entre chefes de Estado na terça-feira (22). Em meio à tensão com os Estados Unidos, o brasileiro deve rejeitar interferências estrangeiras nas eleições, defender negociações de paz e abordar a crise climática.

Segundo a CNN Brasil, o Itamaraty prevê que a soberania nacional ocupará posição central no discurso. A diplomacia brasileira nega, porém, que o pronunciamento terá caráter eleitoral. Lula deve defender as instituições do país e condenar ingerências externas nos assuntos domésticos, sem mencionar diretamente a crise envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

O presidente também não deverá citar nominalmente Donald Trump, apesar das críticas recentes ao governo norte-americano. Brasil e Estados Unidos enfrentam um período de atritos desde que a Casa Branca impôs tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, medida classificada pelo governo Lula como uma violação à soberania do país.

Antes de viajar, Lula afirmou que pretendia conversar com Trump durante a Assembleia Geral para pedir que o presidente dos Estados Unidos “não se meta nas eleições no Brasil”. Até agora, entretanto, não há reunião bilateral marcada nem pedido formal de encontro apresentado por qualquer um dos governos.

A disposição dos discursos pode facilitar um contato informal. Como determina a tradição da Assembleia Geral, Lula será o primeiro chefe de Estado a falar, enquanto Trump ocupará o púlpito logo depois. O deslocamento dos dois presidentes pela área reservada pode abrir espaço para um aperto de mãos ou uma conversa rápida.

Auxiliares de Lula sustentam que a relação pessoal entre os dois permanece preservada, mesmo diante das dificuldades enfrentadas nas negociações entre os governos. Em encontro ocorrido no ano passado, Trump afirmou ter estabelecido uma “excelente química” com o brasileiro. O contato abriu caminho para conversas posteriores, incluindo encontros na Malásia e na Casa Branca, além de telefonemas.

Guerras, alimentos e corrida armamentista

No plano internacional, Lula deve criticar o aumento dos conflitos e reafirmar a defesa do diálogo diplomático como caminho para a paz. A expectativa é que ele destaque os impactos econômicos das guerras, especialmente sobre a produção, a distribuição e o preço dos alimentos.

O presidente também deverá alertar para o avanço da corrida armamentista e para a intensificação da disputa entre as potências pelo controle de recursos naturais estratégicos. A mensagem pretende reforçar a defesa brasileira do multilateralismo e da solução negociada para crises internacionais.

A pauta ambiental será outro eixo do pronunciamento. Lula deverá mencionar a COP30 e apresentar o Brasil como defensor de um modelo que concilie crescimento econômico, inclusão social e preservação ambiental.

O discurso deve incluir ainda a regulação das plataformas digitais. Entre os temas previstos estão o ECA Digital, a proteção de crianças e mulheres no ambiente virtual e os desafios associados ao desenvolvimento acelerado da inteligência artificial.

Crime organizado entra na pauta

O enfrentamento ao crime organizado transnacional também deve ganhar destaque, em resposta às acusações feitas por Trump contra o Brasil. Lula pretende apresentar medidas adotadas pelo governo brasileiro, incluindo acordos de cooperação firmados com os próprios Estados Unidos.

Em documento encaminhado ao Congresso norte-americano, Trump acusou o governo brasileiro de falhar no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV). O presidente dos Estados Unidos defendeu ações mais agressivas contra as duas organizações.

A equipe diplomática brasileira avalia que a acusação da Casa Branca segue uma “fórmula” que “tem embutido outros interesses”. A expectativa é que Lula conteste esse tipo de pressão ao expor iniciativas nacionais de segurança e mecanismos internacionais de cooperação.

Reunião com Zohran Mamdani

Fora da Assembleia Geral, Lula terá uma reunião com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Solicitado pelo norte-americano, o encontro deverá ocorrer na residência do representante permanente do Brasil na ONU, o embaixador Sérgio Danese.

Mamdani assumiu o comando da cidade em janeiro de 2026. Aos 34 anos, tornou-se o prefeito mais jovem de Nova York em mais de um século e o segundo na história do município a se identificar como socialista.

Integrantes do PT consideram Mamdani uma liderança com potencial para renovar a esquerda internacional. Interlocutores do governo ponderam, contudo, que uma aproximação mais ostensiva pode provocar novos atritos com Trump durante as negociações comerciais entre Brasília e Washington.

A equipe presidencial analisa aproximadamente 30 pedidos de reuniões bilaterais. Além do compromisso com Mamdani, está confirmada uma entrevista de Lula à jornalista Christiane Amanpour, da CNN. A definição das demais agendas dependerá dos horários da Assembleia Geral e das prioridades diplomáticas brasileiras.