A advogada e ex-juíza federal Luciana Bauer expressou severas preocupações sobre a situação institucional brasileira em recente entrevista ao programa 22 Horas. Ao comentar uma decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), Bauer classificou a medida como operando em um terreno de “nulidade total” e apontou para a possibilidade de uma nova ofensiva política direcionada a setores de esquerda e ao governo do presidente Lula.

Para a ex-magistrada, a ação de Mendonça não deve ser vista apenas sob o prisma jurídico, mas também possui uma dimensão política relevante, especialmente em vista das próximas disputas eleitorais. Ela traçou um paralelo entre o momento atual e os eventos que precederam o golpe de 2016, sugerindo que a atuação de diferentes atores do sistema de Justiça foi crucial naquele processo político. Bauer chegou a afirmar que “É o início de um golpe”, comparando a postura de Mendonça com episódios que, em sua análise, marcaram a preparação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Críticas à decisão de Mendonça e possíveis implicações

Luciana Bauer argumentou que a decisão de Mendonça apresenta sérios problemas jurídicos. Segundo ela, o ministro teria determinado uma investigação envolvendo indivíduos específicos sem a provocação do Ministério Público ou a iniciativa da autoridade policial, o que, em sua visão, contraria a Constituição, precedentes do próprio STF e o regimento interno da Corte. “O Mendonça opera sabendo que ele está no terreno da nulidade total”, declarou a advogada, que também levantou a hipótese de que a conduta possa ser analisada sob a ótica de um eventual abuso de autoridade.

A ex-juíza criticou a imprensa por uma suposta cobertura seletiva da crise, alegando que certas condutas de ministros do Supremo recebem ampla atenção, enquanto outras que deveriam ser investigadas são ignoradas. Ela também alertou que a atuação de Mendonça pode ter impactos que vão além do caso em questão, prevendo uma estratégia política para influenciar a composição do Senado e a relação entre o Congresso e o STF. Bauer associou o episódio ao possível fortalecimento da direita nas eleições, o que poderia levar a pedidos de impeachment de ministros do STF e a uma escalada nos conflitos entre os Poderes, culminando em uma “República realmente conflagrada”.

Lava Jato e o “Lavajatismo” em debate

Na entrevista, Bauer reiterou suas críticas à Operação Lava Jato e ao que denomina “lavajatismo” nas instituições brasileiras, argumentando que a operação não foi totalmente desmantelada e que suas estruturas persistiram. Ela comparou a situação a uma “hidra” cujas cabeças não foram arrancadas completamente, e citou investigações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) relacionadas à Lava Jato, questionando a demora na adoção de providências institucionais. A advogada defendeu que a ausência de uma resposta mais contundente às irregularidades atribuídas à Lava Jato contribuiu para a manutenção de práticas e grupos políticos em posições de influência.

Para Bauer, a permanência de figuras associadas ao lavajatismo indica que a disputa em torno da operação ainda está em curso. Ela sustenta que a falta de responsabilização efetiva pelos abusos da Lava Jato permitiu que concepções institucionais daquele período sobrevivessem. A ex-juíza enfatizou a necessidade de o Brasil confrontar de forma mais aprofundada os episódios da operação, não apenas para responsabilizar agentes públicos, mas para evitar a repetição de mecanismos de uso político do sistema de Justiça. Sua crítica abrange todos os envolvidos, independentemente de posição, e enxerga o conflito atual como parte de uma disputa mais ampla sobre os limites da atuação judicial e o papel do Judiciário na política brasileira. A mensagem final de Bauer foi um alerta sobre a persistência de estruturas institucionais herdadas da Lava Jato, que, se não forem enfrentadas, podem levar a novas rupturas democráticas.