A Índia está intensificando seus esforços para edificar uma base industrial de defesa autônoma, por meio de uma combinação de investimentos públicos e privados, criação de centros de pesquisa, infraestrutura especializada e corredores industriais. O objetivo central é diminuir a dependência histórica do país em relação à importação de armamentos e, ao mesmo tempo, ampliar sua presença no mercado internacional de defesa. Essa estratégia é avaliada por pesquisadores como Atul Kumar e Kumkum Mohata, da Observer Research Foundation (ORF), que destacam a inspiração em modelos internacionais bem-sucedidos, onde a concentração geográfica de empresas, universidades, fornecedores e centros tecnológicos resultou em complexos industriais de defesa poderosos.

Apesar de possuir uma das maiores estruturas militares do mundo, a Índia ainda figura entre os maiores importadores de armamentos, uma vulnerabilidade estratégica diante das crescentes tensões geopolíticas. Historicamente, o setor de defesa indiano foi dominado por empresas estatais, com processos de aquisição considerados ineficientes e restrições significativas à participação privada. Contudo, essa dinâmica começou a mudar com a implementação de reformas recentes, incluindo a política “Make in India”, a flexibilização de limites para investimentos estrangeiros e a abertura de oportunidades para companhias privadas, visando o desenvolvimento de uma indústria militar mais ampla e tecnologicamente avançada.

Crescimento da produção e exportações

Os resultados dessa nova abordagem já são perceptíveis. No ano fiscal de 2025-26, a produção indiana de defesa atingiu um recorde de 1,78 trilhão de rúpias, com as exportações alcançando 38,42 bilhões de rúpias. Este avanço sinaliza uma transição gradual da Índia de um grande comprador de sistemas militares para um produtor crescente de suas próprias necessidades e um exportador em potencial. Essa transformação também acarreta implicações econômicas significativas, pois a indústria de defesa atua como um catalisador para investimentos em engenharia, eletrônica, inteligência artificial, novos materiais e aeronáutica, entre outras tecnologias de uso dual.

Um dos pilares dessa estratégia é o Uttar Pradesh Defence Industrial Corridor (UPDIC), um corredor industrial de defesa localizado no estado mais populoso da Índia. Estruturado em seis polos, o projeto visa agrupar grandes fabricantes, pequenas e médias empresas, startups, universidades, instituições de pesquisa e desenvolvimento e infraestrutura especializada. A meta é criar um ecossistema que conecte conhecimento, fornecedores, mão de obra qualificada e capacidade industrial. Embora os compromissos de investimento no corredor chegassem a aproximadamente 423,22 bilhões de rúpias até março de 2026, o volume efetivamente investido era de cerca de 48,94 bilhões, evidenciando o desafio de transformar anúncios em produção efetiva.

Inovação acadêmica e autonomia tecnológica

O projeto também busca integrar a indústria militar com as instituições acadêmicas indianas. Centros de excelência em instituições como o IIT Kanpur e o IIT-BHU fornecem infraestrutura para pesquisa, desenvolvimento, testes e formação de profissionais especializados. Essa conexão é crucial para que a Índia não se limite à fabricação local de equipamentos desenvolvidos no exterior, mas desenvolva a capacidade de dominar tecnologias críticas e criar seus próprios sistemas. A estratégia visa ainda conectar grandes empresas a micro, pequenas e médias empresas, formando cadeias de fornecedores que possam sustentar a produção em larga escala.

A importância do corredor de Uttar Pradesh transcende a produção de armamentos. Segundo Kumar e Mohata, o desenvolvimento de uma cadeia nacional mais integrada aumenta a resiliência da Índia a choques externos e interrupções de fornecimento. Em um cenário global de guerras, disputas comerciais e sanções, a capacidade de produzir equipamentos militares internamente fortalece a autonomia nacional. Para a Índia, há também uma ambição comercial e geopolítica: uma indústria de defesa mais competitiva pode ampliar as exportações para países da Ásia e do Indo-Pacífico, fortalecendo sua presença econômica e influência estratégica. O desafio reside em converter a expansão quantitativa em capacidade tecnológica e competitividade global, integrando investimentos anunciados em produção real e aprimorando a colaboração entre a academia e a indústria.