247 – A Igreja de La Madeleine impediu a tradicional lavagem de suas escadarias durante a 25ª edição da Lavagem de Madeleine, evento afro-brasileiro realizado há mais de duas décadas em Paris. Conforme a organização da celebração, o pároco Monsenhor Patrick Chauvet comunicou que não permitirá a cerimônia no espaço onde o ritual consolidou sua história na capital francesa.
De acordo com a organização da Lavagem de Madeleine, a decisão afeta um dos principais símbolos do evento, que integra o Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial da França e o calendário cultural de Paris. Para manter a tradição, os responsáveis transferiram o rito para uma praça pública e preservaram o restante da programação.
Idealizador da celebração, Robertinho Chaves afirmou que os organizadores ainda buscam esclarecimentos e mantêm disposição para conversar com a Igreja de La Madeleine.
“Lamentamos muito não poder realizar neste ano a lavagem das escadarias da Igreja de La Madeleine como fazemos há mais de duas décadas. Essa cerimônia faz parte da nossa história e da relação que construímos com Paris. Sempre fizemos a Lavagem de forma pacífica, respeitosa e aberta ao diálogo entre diferentes religiões e culturas. Estamos chegando à nossa 25ª edição e esperamos compreender as razões dessa decisão. Continuamos abertos ao diálogo”, afirma Robertinho Chaves, idealizador da Lavagem de Madeleine.
Ritual deu origem ao nome da celebração
Robertinho criou a Lavagem de Madeleine em Paris, em 2002, com inspiração na Lavagem do Bonfim, realizada em Salvador. Desde então, a manifestação reúne referências culturais e religiosas do Brasil e da França e promove o encontro entre tradições católicas e religiões de matriz africana.
A cerimônia reúne baianas vestidas de branco, água de cheiro, flores, música e elementos ligados à ancestralidade afro-brasileira. Ao longo das edições, franceses, brasileiros, imigrantes e participantes de diferentes nacionalidades e religiões passaram a integrar o cortejo.
A lavagem das escadarias tornou-se parte central da identidade da celebração e deu nome ao evento. Por mais de duas décadas, as baianas realizaram o ritual diante da Igreja de La Madeleine, um dos monumentos religiosos mais conhecidos de Paris.
França reconheceu manifestação como patrimônio imaterial
Em 2022, o Ministério da Cultura francês incluiu a Lavagem de Madeleine no Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial da França. A documentação oficial da manifestação registra a realização da cerimônia diante da igreja, com representantes do catolicismo e das religiões de matriz africana, além da lavagem das escadarias pelas baianas.
A Prefeitura de Paris também apoia a celebração, que integra o calendário cultural da cidade. A programação tradicionalmente leva música, gastronomia, religiosidade e manifestações da cultura brasileira às ruas da capital francesa durante o mês de setembro.
Artistas brasileiros participaram de diferentes edições ao longo da trajetória do evento. Entre eles estão Gilberto Gil, Caetano Veloso, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Carlinhos Brown, Preta Gil e integrantes do Olodum.
Organização transfere lavagem para praça pública
Mesmo sem acesso às escadarias da Igreja de La Madeleine para realizar o ritual, a organização manteve a cerimônia na programação e escolheu um espaço público para receber a celebração.
No dia 13 de setembro, mais de 700 artistas participam das atividades nas ruas de Paris. A programação começa às 10h, na Place de la République, com Mariene de Castro e Robertinho Chaves à frente do trio elétrico.
Jau, Gildaa e Lorena Pires também participam do cortejo, que reúne samba, percussão, maracatu, capoeira e baianas.
A cantora lírica brasileira Lorena Pires, artista residente da Academia da Ópera Nacional de Paris desde 2025, deverá interpretar “Ave Maria” durante a programação. A apresentação ocorre junto às manifestações das baianas e às referências religiosas afro-brasileiras presentes na celebração.
Robertinho Chaves afirmou que a mudança do local não interromperá os ritos nem as atividades previstas pela organização.
“A cultura afro-brasileira já atravessou séculos de resistência e continuará resistindo. Não vamos permitir que uma decisão como essa apague nossa fé, nossa ancestralidade ou nossa cultura. Todos os nossos ritos, manifestações culturais e a programação da 25ª Lavagem de Madeleine serão mantidos. Vamos ocupar Paris com samba, capoeira, maracatu, nossas baianas, nossa fé e, acima de tudo, com paz. Nossa resposta será a cultura, porque foi assim que chegamos até aqui e é assim que vamos continuar”, afirma Robertinho.
Evento ocorre em meio à cooperação cultural Brasil-França
A 25ª edição ocorre em um período de aproximação cultural entre Brasil e França. Em 2025, os dois países celebraram um Acordo de Cooperação na Área Cultural e promoveram o Ano Cultural Brasil-França.
Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Emmanuel Macron acertaram a iniciativa com o objetivo de ampliar intercâmbios culturais e estreitar relações entre as sociedades brasileira e francesa.
A Lavagem de Madeleine passou a ocupar espaço nesse intercâmbio ao reunir nas ruas de Paris manifestações religiosas, musicais e culturais de origem brasileira, além de participantes franceses e comunidades de imigrantes.
A produção informou que continuará o diálogo com a Igreja de La Madeleine e com instituições francesas em busca de esclarecimentos sobre a decisão. Ao mesmo tempo, a organização manterá a programação da 25ª edição e realizará o ritual em espaço público, preservando a presença das baianas, das tradições afro-brasileiras e das demais manifestações que acompanham a Lavagem desde sua criação.






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