247 – Uma nova ofensiva dos houthis contra a Arábia Saudita, acompanhada pelo impasse diplomático sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, elevou o risco de expansão da guerra no Oriente Médio e de novos impactos sobre o fornecimento mundial de petróleo.

Segundo a Reuters, autoridades do governo iemenita afirmam que o grupo alinhado ao Irã intensificou os ataques com drones e mísseis e consolidou posições na costa oeste do Iêmen, ao longo do Mar Vermelho. Representantes sauditas e iemenitas discutem em Riad como responder ao avanço.

Os houthis disseram ter lançado dezenas de mísseis e drones contra uma base aérea militar em Khamis Mushait, no sul da Arábia Saudita, na segunda-feira (14). De acordo com o grupo, os alvos incluíram hangares, radares, pistas e depósitos de munição.

A ofensiva teria sido uma resposta aos bombardeios conduzidos pela Arábia Saudita no território iemenita. A coalizão liderada por Riad informou que 13 civis ficaram feridos nos ataques. Alertas de emergência foram emitidos no Iêmen e em outras três cidades do sul saudita.

Controle da costa aumenta pressão sobre Riad

O avanço dos houthis ganhou importância estratégica com a tomada da ilha de Perim, localizada na entrada do Mar Vermelho. A posição permite ao grupo ampliar sua capacidade de pressão sobre uma das principais rotas marítimas usadas pelo comércio internacional de energia.

Autoridades iemenitas disseram que, apesar da intensificação dos ataques aéreos das forças sauditas e iemenitas, os houthis continuam no controle efetivo de quase toda a costa oeste do Iêmen banhada pelo Mar Vermelho.

Os bombardeios atingiram posições do grupo, inclusive nas proximidades do porto histórico de Mocha. Até o momento, porém, as operações aéreas não teriam revertido os ganhos territoriais registrados durante a ofensiva.

“Os houthis estão sendo submetidos a forte pressão. Em resposta, estão pressionando cada vez mais os sauditas e ampliando sua campanha de ataques com mísseis e drones”, afirmou à Reuters uma autoridade iemenita.

A retomada dos confrontos interrompeu um período de relativa estabilidade no Iêmen. A Arábia Saudita lidera desde 2015 uma coalizão militar contra os houthis, mas as hostilidades haviam diminuído nos últimos anos em razão de um cessar-fogo.

Os combates voltaram a se intensificar em setembro, quando os houthis passaram a repelir forças ligadas ao governo iemenita reconhecido internacionalmente e avançaram sobre áreas estratégicas.

Oleoduto interrompido ameaça oferta global

A ofensiva ocorre em meio à paralisação do oleoduto leste-oeste da Arábia Saudita, atingido por um ataque aéreo na quinta-feira (10). Riad atribuiu a ação a milícias apoiadas pelo Irã que operam no Iraque.

Com cerca de 1.200 quilômetros, o oleoduto foi construído na década de 1980 para transportar petróleo do Golfo ao Mar Vermelho sem passar pelo Estreito de Ormuz. A infraestrutura surgiu como alternativa estratégica durante a guerra entre Irã e Iraque, quando a navegação pelo estreito também estava ameaçada.

Operadores do mercado avaliam que uma interrupção prolongada do oleoduto pode retirar do mercado o equivalente a até 4% do fornecimento mundial de petróleo, especialmente enquanto Ormuz permanecer amplamente bloqueado. O governo saudita ainda não informou quando a operação será retomada.

Os preços do petróleo chegaram a subir mais de 4% na segunda-feira, mas perderam parte do avanço e encerraram o dia com alta próxima de 1%.

Estados Unidos resistem a intervenção direta

A reabertura da frente de combate no Iêmen impõe outro desafio ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Três fontes disseram à Reuters que Washington resistiu, até agora, aos pedidos sauditas por uma intervenção militar direta e limitou seu apoio ao fornecimento de informações de inteligência.

Trump afirmou no fim de semana que conversou com o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman. Segundo o presidente norte-americano, os houthis também procuraram Washington para pedir que os Estados Unidos não se envolvam diretamente no conflito.

A imprensa estatal saudita informou que Mohammed bin Salman recebeu na segunda-feira, em Jeddah, o almirante Brad Cooper, comandante das forças norte-americanas na região.

A hesitação de Washington ocorre diante do risco de que uma intervenção contra os houthis aprofunde o confronto com o Irã e amplie a instabilidade nas rotas de transporte de petróleo.

Negociação sobre Estreito de Ormuz é adiada

No campo diplomático, Omã deveria ter sediado na segunda-feira uma reunião entre representantes do Irã e dos países árabes do Golfo. O encontro trataria de negociações para reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passavam, antes da guerra, cerca de 20% das exportações mundiais de petróleo.

O governo de Omã anunciou, entretanto, o adiamento da reunião. Teerã afirmou que a decisão foi tomada a pedido da Arábia Saudita. A suspensão reduziu as expectativas de uma solução negociada em curto prazo.

Trump voltou a dizer que o Irã estaria interessado em alcançar rapidamente um acordo. Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, rejeitou a declaração e classificou a mensagem do presidente norte-americano como uma distração.

“Não haverá negociações até que as condições do Irã sejam atendidas”, escreveu Rezaei na rede social X.

O Estreito de Ormuz permanece praticamente fechado desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. O Irã ameaça atingir embarcações que atravessem a passagem sem autorização de suas forças.

“A Marinha da Guarda Revolucionária declara firmemente que o Estreito de Ormuz está fechado e continua sob nosso controle inteligente”, afirmou a Guarda Revolucionária iraniana.

Relatos divergem sobre ataque a petroleiro

A situação das embarcações na região permanece marcada por versões conflitantes. A Guarda Revolucionária declarou que o petroleiro El Gaia, de bandeira panamenha, foi atingido por minas marítimas ao atravessar uma zona proibida ao sul do Estreito de Ormuz.

O Comando Central dos Estados Unidos contestou imediatamente o relato. Segundo os militares norte-americanos, o navio foi “atingido por um míssil iraniano no mês passado e ficou inoperante”.

A Organização Marítima Internacional, vinculada às Nações Unidas, informou que o El Gaia sofreu danos no sábado (12), sem apontar a causa. Dois tripulantes estavam desaparecidos.

A Reuters declarou não ter conseguido localizar imediatamente os proprietários da embarcação, sediados em Dubai, para verificar de maneira independente as diferentes versões. O episódio reforça a incerteza em torno da segurança marítima enquanto ataques no Iêmen, bloqueio de Ormuz e impasses diplomáticos pressionam simultaneamente as principais rotas de petróleo da região.