O filme “Honestino”, dirigido por Aurélio Michiles e produzido por Nilson Rodrigues, chega aos cinemas para resgatar a memória da resistência à ditadura militar no Brasil. A obra cinematográfica foca na trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil perseguido pelo regime, e lança luz sobre a luta de uma geração que enfrentou a repressão dentro e fora das universidades.
Em um contexto em que o Brasil revisitou o período autoritário e forças políticas associadas ao autoritarismo permanecem presentes, o cinema nacional utiliza a memória como ferramenta de reflexão sobre o presente. Pedro Tierra, poeta e militante da resistência à ditadura, ex-secretário de Cultura do Distrito Federal, contextualiza o filme como parte de uma produção audiovisual empenhada em revisitar um dos períodos mais violentos da história recente brasileira.
Reafirmando o Papel do Cinema e a Memória Histórica
Ao analisar “Honestino” sob diversas perspectivas – histórica, política, estética, econômica e humana – Tierra argumenta que o filme não apenas recupera a memória do movimento estudantil e suas lutas, mas também reafirma o papel do cinema brasileiro na defesa da democracia, no combate ao fascismo e na construção da soberania cultural do país.
Do ponto de vista histórico, seguindo obras como “Ainda Estou Aqui” e “Agente Secreto”, o filme recupera, através da vida de Honestino Guimarães, a memória das lutas da juventude brasileira como parte fundamental da resistência ao regime. A produção oferece aos espectadores, especialmente aos mais jovens, elementos para a construção da memória recente sobre o significado da ditadura civil-militar (1964-1988) e seu impacto em gerações.
O Legado de Honestino e a Luta Pela Autonomia Universitária
“Honestino” destaca o assédio e a violação da autonomia universitária, uma característica dos regimes ditatoriais implantados na América Latina. A Universidade de Brasília (UnB), em particular, foi alvo do obscurantismo do regime, e o movimento estudantil da UnB, em sintonia com a sociedade, criou diversas formas de resistência contra a repressão.
Os depoimentos dos protagonistas, colhidos com sensibilidade, capturam a humanidade de uma juventude que se dedicou à resistência contra a ditadura. O filme mostra que a geração que resistiu e foi aparentemente derrotada nos anos 70, foi, a rigor, vitoriosa sob a ótica da História. A sociedade brasileira retornou à democracia liberal, ainda que imperfeita, buscando justiça social e soberania nacional. Os perpetradores de sequestros, torturas e desaparecimentos forçados durante a ditadura, e seus descendentes ideológicos, foram derrotados, como evidenciado nos eventos de 8 de janeiro de 2023.
Esteticamente, Michiles e Nilson Rodrigues recuperam uma linguagem cinematográfica que une documentário e ficção, sem justaposições artificiais, conectando o passado de horror com o presente. O filme contribui para uma linguagem cinematográfica própria, brasileira, que defende um discurso anticolonial e a identidade cultural do país.
A produção de cinema no Brasil, sem uma indústria consolidada e com políticas públicas ainda aquém das necessidades, é um desafio financeiro. Fazer cinema no país ainda é uma aventura de alto risco, uma etapa artesanal que depende de maior investimento e compreensão do papel do audiovisual na educação social e na consolidação da soberania cultural.
Em sua dimensão existencial, “Honestino” devolve à sociedade brasileira o personagem histórico de Honestino Guimarães. O jovem que se engajou na resistência não renunciou ao amor, mantendo relações afetuosas com a família por meio de cartas e buscando momentos com a filha Juliana, além de manter sua paixão pelo futebol. O filme humaniza Honestino, fugindo do perfil caricatural de militante em tempo integral e apresentando-o não como um herói individual, mas como parte de uma teia coletiva de sonhos de liberdade, onde o heroísmo reside na sociedade brasileira que resistiu e derrotou a tirania.






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