O deputado federal Gustavo Gayer, do Partido Liberal (PL), que é candidato ao Senado por Goiás, recebeu mais de R$ 417 mil em doações para sua campanha eleitoral de Rodrigo Gonçalves dos Santos. O empresário foi denunciado pelo Ministério Público do Pará (MPPA) por suposta participação em um esquema de fraudes em licitações públicas. As doações, divididas em sete transferências, correspondem a cerca de 22% da arrecadação total da campanha do parlamentar.
As informações, divulgadas pelo site The Intercept Brasil, foram obtidas a partir de dados declarados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de documentos relacionados à investigação do MPPA. Até o dia 29 de setembro, Santos era o maior doador da campanha de Gayer. As sete transferências foram realizadas via Pix entre o final de agosto e o início de setembro, com valores que variavam entre R$ 20 mil e R$ 100 mil. A campanha de Gayer, que afirmou ter recusado recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, depende significativamente de contribuições privadas.
Denúncias contra o empresário
Rodrigo Gonçalves dos Santos foi denunciado pelo MPPA em 11 de abril de 2025, acusado de envolvimento em um esquema de direcionamento de contratos públicos em Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará. A denúncia não implica em condenação, e a defesa do empresário contesta as acusações, com o processo aguardando definição no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Um documento apreendido durante as investigações indicaria que Santos teria desembolsado R$ 897 mil em propinas apenas em fevereiro de 2024. A acusação aponta que esses pagamentos corresponderiam a percentuais entre 6% e 10% dos contratos. O MPPA sustenta que o esquema envolvia agentes públicos que interferiam em concorrências e controlavam o fluxo de pagamentos. Dois ex-servidores públicos, um pregoeiro e um secretário municipal, são mencionados como tendo atuado para inabilitar concorrentes, negociar desistências ou orientar empresas e controlar o fluxo de propinas.
Contratos investigados e atuação em outros estados
Duas empresas de Santos, a RGS Engenharia e a Gonçalves & Dias Engenharia, obtiveram cinco contratos em Canaã dos Carajás que estão sob investigação do MPPA. Esses contratos somam quase R$ 83 milhões e abrangem obras de pavimentação, drenagem e a construção de um parque de exposições. Interceptações telefônicas, parte da investigação, também registraram Santos informando a um ex-pregoeiro sobre uma proposta com desconto para uma concorrência de unidades habitacionais. Embora suas empresas não tenham vencido essa licitação, o episódio foi incluído na investigação sobre suposta violação do sigilo do certame.
O MPPA alega que empresários envolvidos teriam recebido informações antecipadas sobre obras e colaborado com agentes públicos para adequar editais às características técnicas de empresas participantes do suposto esquema, dificultando a concorrência. As empresas ligadas a Santos também receberam aproximadamente R$ 6,5 milhões de emendas parlamentares, incluindo as de relator, que ficou conhecida como “orçamento secreto”. Esses recursos foram destinados, entre outros, à pavimentação de vias em Ji-Paraná, Rondônia, via Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Contratos ativos e encerrados da empreiteira com órgãos federais somam mais de R$ 370 milhões. O Ministério dos Transportes e o DNIT afirmaram não ter registros de irregularidades envolvendo a empresa, mas disseram que tomarão providências caso recebam comunicação formal sobre ilícitos.
A Gonçalves & Dias Engenharia também buscou contratos em Goiás, estado pelo qual Gayer é candidato. A empresa participou de uma licitação na Prefeitura de Goiânia no final de 2025, chegando a apresentar uma das propostas mais vantajosas, mas foi inabilitada por problemas na documentação. A defesa de Santos classificou o ocorrido como um procedimento “corriqueiro”, afirmando que a empresa aceitou a decisão por não ter mais interesse na concorrência.
Posicionamentos das defesas e a disputa no STJ
A defesa de Rodrigo Gonçalves dos Santos e de suas empresas refuta as acusações do MPPA, classificando-as como “completamente improcedentes”. Os advogados afirmam que uma decisão do STJ reconheceu a ilegalidade da investigação e que o empresário “não deve nada à Justiça”. Em relação às doações para a campanha de Gustavo Gayer, Santos atribuiu as contribuições a um “alinhamento político-ideológico” e negou qualquer vínculo comercial.
Os advogados de Gayer, por sua vez, apontam a decisão do STJ como um “fato judicial decisivo” favorável ao empresário e negam proximidade pessoal entre o candidato e Santos, ou com os demais doadores de sua campanha. A defesa do parlamentar também afirmou que Gayer desconhecia o interesse da companhia em contratos públicos em Goiás. Gayer, membro titular da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados, afirmou não ver conflito ético entre sua atuação parlamentar e o recebimento das doações. A Procuradoria-Geral de Canaã dos Carajás declarou que a administração municipal é “vítima do esquema” e que abriu investigações administrativas internas em colaboração com o MPPA e a Justiça. O Ministério da Educação informou não ter contrato com a Gonçalves & Dias.
A investigação sobre os contratos em Canaã dos Carajás é objeto de uma disputa no STJ. Em 24 de março de 2026, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca inicialmente rejeitou o pedido da defesa do empresário para anular o processo. Contudo, após novo recurso, o ministro reviu sua decisão em 12 de junho, acolhendo a solicitação e determinando o trancamento do processo. No entanto, a controvérsia não está definitivamente encerrada, pois a decisão aguarda análise colegiada de recursos apresentados pelo MPPA e pelo Ministério Público Federal (MPF). O Conselho Nacional de Procuradores-Gerais dos Ministérios Públicos dos Estados e da União (CNPG) se manifestou a favor da legitimidade da investigação, e o MPPA alerta que a anulação pode ter “efeitos de alcance imprevisível” sobre outras investigações de organizações criminosas.







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