O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), recomendou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoie uma reação institucional da Polícia Federal (PF) contra determinações do ministro André Mendonça que a corporação considere excessivas ou ilegais. A orientação foi transmitida a Lula em uma reunião, enquanto as tensões aumentam em torno de investigações sob relatoria de Mendonça, que incluem casos relacionados ao Banco Master e ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), onde Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, está sendo apurado.

Mendes teria avaliado que o governo, o Ministério da Justiça e a própria PF demoraram a agir diante das medidas de Mendonça. Entre as decisões questionadas estão a restrição do acesso de investigadores a materiais e a concentração de ações e processos no gabinete do relator no STF.

Reação judicial e vias institucionais

Na visão apresentada a Lula, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, poderia contestar formalmente as ordens que considerasse ilegais, buscando a suspensão das determinações no próprio Judiciário. Gilmar Mendes chegou a considerar, como uma possibilidade extrema, a apresentação de um mandado de segurança contra as decisões de Mendonça, embora não tenha indicado essa como a via preferencial. A prioridade seria uma solução institucional, que poderia envolver uma interlocução do ministro da Justiça com o presidente do STF, Edson Fachin, ou uma conversa direta entre Rodrigues e Fachin.

O diretor-geral da PF já havia tentado reagir à situação. Em julho, Andrei Rodrigues procurou o advogado-geral da União, Jorge Messias, para avaliar a possibilidade de contestar as decisões do relator. Messias, no entanto, recusou-se a tomar providências, argumentando que a atuação da Advocacia-Geral da União em um processo criminal seria inédita e poderia gerar acusações de obstrução de Justiça. Durante a conversa com Lula, Gilmar Mendes também teria mencionado relatórios da PF que foram rejeitados pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em episódios recentes das investigações.

Aumento das tensões em depoimento

Um dos pontos de conflito surgiu com o depoimento do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, prestado diretamente a André Mendonça, com a presença do Ministério Público, mas sem representantes da PF. Vorcaro teria afirmado na oitiva que pretendia delatar integrantes do governo Lula e fez acusações contra Andrei Rodrigues. A reunião de Gilmar Mendes com Lula ocorreu após a divulgação dessas informações e de novas revelações sobre as investigações do banqueiro.

No mesmo dia, Lula também conversou com Edson Fachin, presidente do Supremo. A série de encontros busca uma solução institucional para o desgaste entre a Polícia Federal e o gabinete de André Mendonça, a fim de evitar que a divergência sobre a condução dos inquéritos se agrave em uma crise maior entre o Executivo, a PF e o STF.