Uma empresa norte-americana, apoiada por um fundo que tem Donald Trump Jr. como sócio, está estabelecendo uma cadeia de fornecimento internacional de terras raras. A matéria-prima virá do Projeto Caldeira, um dos maiores do Brasil, situado no sul de Minas Gerais.

A mineradora australiana Meteoric Resources, responsável pela exploração na região, já enviou amostras de minério para a canadense Ucore Rare Metals. A Ucore pretende processar esse material para abastecer uma fábrica de ímãs nos Estados Unidos, que recebe investimentos de Donald Trump Jr.

Da extração ao produto final

O processo abrange diversas etapas de processamento e refino em diferentes países. A extração inicial e a produção do concentrado de terras raras ocorrem na planta piloto do Projeto Caldeira, em Minas Gerais. Em seguida, o material é enviado à Ucore, que fará a separação dos elementos e a transformação em óxidos industriais na Louisiana, EUA. Por fim, esses óxidos são destinados à Vulcan Elements, uma fabricante na Carolina do Norte que produz ímãs para drones, satélites, equipamentos militares, semicondutores e veículos elétricos.

A 1789 Capital, fundo do qual Donald Trump Jr. é sócio, investiu na Vulcan Elements em agosto de 2025. Em março de 2026, a Vulcan e a Ucore firmaram um acordo para testes de viabilidade, com o objetivo de iniciar o fornecimento comercial constante a partir de 2027. Além do investimento privado, a Vulcan possui um compromisso condicional de empréstimo de US$ 620 milhões, cerca de R$ 3,22 bilhões, concedido pelo Pentágono em 2025. A 1789 Capital, o governo norte-americano e Trump Jr. negam qualquer interferência política na concessão do crédito.

A dimensão do Projeto Caldeira

Em junho deste ano, a Meteoric Resources informou ter processado 43 toneladas de minério de Caldeira, gerando mais de 200 quilos de concentrado de terras raras. Parte dessa amostra foi enviada para análise de qualidade à Ucore, com resultados considerados “excepcionais”, registrando uma taxa média de extração de 71% dos elementos críticos para fabricação de ímãs.

O Projeto Caldeira abrange 78 títulos de pesquisa e mineração em 19,2 mil hectares nos municípios de Andradas, Caldas e Poços de Caldas, próximo à área de proteção ambiental da Pedra Branca. A empresa estima um potencial exploratório de 1,6 bilhão de toneladas de material, com meta de operar por mais de 20 anos, produzindo uma média anual de 12,5 mil toneladas de óxidos de terras raras. Desse total, pelo menos 3 mil toneladas por ano seriam destinadas ao contrato com a Ucore. A operação aguarda a Licença de Instalação, tendo obtido a Licença Prévia do Copam em dezembro de 2025.

Nova legislação brasileira e contexto geopolítico

O avanço de capitais estrangeiros nas reservas brasileiras acelerou a aprovação de leis de proteção estratégica. O acordo preliminar entre Meteoric e Ucore antecede a sanção da Lei nº 2.780/2024, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras. A nova lei concede ao governo federal o poder de analisar e vetar acordos internacionais de fornecimento que possam representar riscos à segurança econômica ou geopolítica do país. Quando Meteoric e Ucore formalizarem um contrato definitivo, ele poderá ser submetido à revisão das autoridades brasileiras. A urgência na aprovação da lei foi motivada por alertas de inteligência sobre a ampliação da presença estrangeira, especialmente de grupos norte-americanos, em quatro grandes projetos de terras raras no Brasil.

O interesse norte-americano neste projeto mineiro reflete a corrida global para reduzir a dependência da China, que detém quase o monopólio no refino global de terras raras. Durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) nos Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que o Brasil seria a solução para os norte-americanos quebrarem a hegemonia chinesa, propondo um alinhamento estratégico formal entre os dois países na cadeia de minerais críticos. Representantes da Meteoric, Ucore, Vulcan Elements, 1789 Capital, Donald Trump Jr. e Flávio Bolsonaro não responderam aos pedidos de comentários.