Um conjunto de documentos, personagens e alianças tem exposto um possível abismo entre o discurso público de Flávio Bolsonaro e as relações de poder concretas que o cercam. As apurações abrangem questões de corrupção, uso de dinheiro público, interesses privados e a mobilização da moral religiosa como ferramenta política, destacando a complexa intersecção entre fé, finanças e os bastidores do poder.

O senador Flávio Bolsonaro enfrenta um inquérito no Supremo Tribunal Federal por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A investigação apura a captação de recursos para um filme sobre Jair Bolsonaro, envolvendo Daniel Vorcaro, banqueiro que foi preso. Além disso, um ex-sócio de Flávio Bolsonaro preservou áudios, fotografias e registros de sua vida privada. Essas revelações trazem à tona figuras como Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega, além de menções à antiga loja de chocolates e fundos no exterior.

Rachadinhas e a Loja de Chocolates

Em 2020, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio Bolsonaro por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro no caso das “rachadinhas”. A acusação apontava para um esquema de desvio de R$ 6,1 milhões dos cofres públicos, com Fabrício Queiroz como suposto operador. Embora as provas tenham sido anuladas por decisões judiciais, as investigações revelaram ligações de seu gabinete com Queiroz e com familiares de Adriano da Nóbrega, ex-capitão da PM apontado como líder de milícia.

A loja de chocolates da qual Flávio era sócio também foi alvo de suspeitas. O Ministério Público alegou que a receita da franquia havia sido inflada, indicando uma diferença de cerca de R$ 1,6 milhão entre o faturamento registrado e o valor recebido na conta da empresa. O ex-sócio Alexandre Santini afirmou que Flávio teria recebido R$ 619 mil em espécie não declarados, alegação contestada pelo senador.

Financiamento de Filme e Relações Privadas

O Banco Master e o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, também estão sob investigação. Flávio Bolsonaro admitiu ter procurado Daniel Vorcaro para captar US$ 24 milhões para o projeto. Mensagens recuperadas pela Polícia Federal mostram o senador como interlocutor direto de Vorcaro em tratativas, que apontaram repasses de milhões de reais para um fundo ligado à produção. Um inquérito foi aberto a pedido da Polícia Federal, com o aval da Procuradoria-Geral da República, para apurar suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

A esfera privada de Flávio Bolsonaro se conecta com a pública de forma contundente através de material atribuído a Alexandre Santini. Reportagens descreveram festas privadas, despesas bancadas por pessoas próximas ao senador, além de mensagens e fotografias. Embora a vida sexual de adultos não seja matéria de Estado, a relevância jornalística surge quando há a intersecção com dinheiro, favores, acesso a poder ou dependências. Nesse contexto, a questão central não é sobre relacionamentos pessoais, mas sobre quem financiou, quem registrou e quem poderia ser influenciado por essa intimidade.