Jared Kushner e Steve Witkoff, enviados do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegaram a Kiev neste domingo (6) para uma rodada de negociações com o governo ucraniano sobre uma possível saída para a guerra com a Rússia. A visita ocorre um dia depois de os dois terem se reunido, em Moscou, com o presidente russo, Vladimir Putin.

As informações são da Agência France Presse, com dados também divulgados pela agência russa TASS. Esta é a primeira vez que Kushner, genro de Trump, e Witkoff, empresário próximo ao presidente estadunidense, participam de conversas presenciais na capital ucraniana desde o início da guerra, em fevereiro de 2022.

Os enviados chegaram a Kiev de trem e devem se reunir com o presidente Volodimir Zelenski. O deslocamento ferroviário tornou-se o principal meio de chegada de autoridades estrangeiras ao país desde o fechamento do espaço aéreo ucraniano após o início da ofensiva russa.

A viagem busca dar continuidade às tratativas iniciadas no sábado (5), quando Kushner e Witkoff estiveram no Kremlin. Segundo comunicado da Casa Branca, o encontro com Putin teve como objetivo “promover a agenda de paz do presidente Trump para a guerra entre Rússia e Ucrânia”.

“As duas partes discutiram planos concretos para as próximas etapas, que serão anunciadas nas próximas semanas, e aguardam com expectativa reuniões igualmente produtivas amanhã na Ucrânia”, afirmou a Casa Branca.

Kremlin fala em conversa “extremamente franca”

O assessor diplomático do Kremlin Yuri Ushakov descreveu a reunião em Moscou como “extremamente franca”. Segundo ele, os representantes estadunidenses “apresentaram uma série de ideias sobre possíveis caminhos para um acordo”.

O governo russo, porém, não divulgou detalhes sobre as propostas apresentadas.

Ushakov também afirmou que Moscou manifestou confiança na capacidade das forças russas de atingir seus objetivos militares e conquistar as áreas restantes do leste da Ucrânia reivindicadas pelo Kremlin.

A Rússia mantém sob seu controle extensas regiões do leste e do sul ucranianos. Putin vem reiterando que pretende consolidar o domínio sobre territórios que Moscou considera estratégicos.

Zelenski, por sua vez, declarou neste domingo estar aberto às conversas com os enviados dos Estados Unidos.

“A Ucrânia sempre foi e continuará sendo construtiva”, escreveu o presidente ucraniano nas redes sociais antes do encontro.

Trump diz ter “uma ideia para a paz”

Na sexta-feira (4), Trump afirmou que Kushner e Witkoff viajariam levando uma proposta para interromper os combates.

“Temos uma ideia para a paz”, declarou o presidente estadunidense, sem apresentar detalhes sobre os termos negociados.

As sucessivas iniciativas diplomáticas dos Estados Unidos ainda não resultaram em um acordo capaz de interromper uma guerra que já dura mais de quatro anos e provocou centenas de milhares de mortes, além do deslocamento de milhões de pessoas.

A reunião do sábado representou a oitava passagem de Kushner e Witkoff por Moscou desde o início do conflito. Até agora, porém, eles não haviam visitado Kiev no âmbito dessas negociações.

Antes da conversa no Kremlin, Putin agradeceu a Trump pela insistência em tentar alcançar um entendimento, embora tenha reconhecido que a tarefa “não é simples”.

Ao comentar a ida dos negociadores a Kiev, o presidente russo afirmou: “Independentemente do que aconteça a seguir, contatos desse tipo são, sem dúvida, sempre benéficos”.

Putin também disse que Moscou contribuiria para a segurança dos representantes estadunidenses durante a passagem deles pela Ucrânia.

“Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir a segurança do processo de negociação e de mediadores como vocês”, afirmou.

Capitais ficam fora dos ataques durante negociações

Rússia e Ucrânia concordaram em não atacar as capitais dos dois países durante três dias, período destinado às conversações diplomáticas.

Zelenski afirmou ter tratado do assunto com os enviados estadunidenses e declarou que Kiev não lançaria ataques contra Moscou durante esse intervalo.

A trégua, contudo, não alcançou outras áreas do conflito.

A Força Aérea da Ucrânia informou que a Rússia lançou 108 drones e mísseis durante a noite. Moscou declarou ter abatido 258 drones ucranianos.

Putin afirmou no sábado ter “observado que o lado ucraniano reduziu significativamente” os ataques contra a Rússia e contra Moscou.

As autoridades ucranianas, por outro lado, disseram que ataques russos mataram dez pessoas em diferentes regiões do país, entre elas uma criança e integrantes de uma mesma família na região de Kharkiv. Outras duas pessoas morreram nos arredores de Kiev.

Apesar da nova rodada diplomática, parte da população ucraniana demonstra ceticismo em relação à possibilidade de um acordo imediato. Yaroslav, morador de Kiev de 29 anos, disse à AFP: “Neste momento, isso não me dá nenhuma esperança. Já houve negociações demais”.