O documentarista João Moreira Salles, fundador da revista Piauí e herdeiro de uma das maiores fortunas do Brasil, publicou um ensaio intitulado “O que esses brasileiros sabem”, no qual aborda a relação da elite econômica do país com Flávio Bolsonaro. O texto levanta questionamentos sobre a legitimidade de transformar o candidato em um interlocutor padrão, considerando o histórico de sua família na política.
Moreira Salles, filho do diplomata e banqueiro Walter Moreira Salles, argumenta que, após os eventos desde 2018, incluindo a pandemia, as ameaças às instituições democráticas, o 8 de janeiro de 2023 e as investigações que cercaram a família Bolsonaro, não há espaço para alegar desconhecimento sobre quem é Flávio Bolsonaro e o que ele representa. Ele enfatiza que o próprio candidato se apresenta como continuador do legado de seu pai, Jair Bolsonaro, desfazendo a ideia de uma versão “civilizada” do bolsonarismo.
Apoio e Reuniões da Elite
O ensaio destaca uma lista de empresários, banqueiros e executivos que participaram de encontros e jantares com Flávio Bolsonaro. Entre os nomes mencionados estão Flávio Rocha, Marcelo Kayath, André Esteves, Eduardo Bartolomeo, Eduardo Fischer, David Feffer, Roberto Campos Neto, Fernando Marques, Rubens Ometto, Emmanuel Hermann, Paulo Skaf, Luiz Carlos Trabuco, Fábio Barbosa, Alexandre Ostrowiecki, Mario Araripe, Milton Maluhy Filho, Helio Seibel, Christian Egan, Roberto Dagnoni, Pedro Parente, Daniel Goldberg, Fábio Ermírio de Moraes, Fabio Carvalho, Richard Gerdau, Gilson Finkelsztain, José Galló, Fernando Simões e João Camargo. Esses indivíduos representam setores poderosos da economia brasileira, como o sistema financeiro, indústria, mineração, siderurgia, energia, infraestrutura, varejo, logística e mercado de capitais.
O autor ressalta que, embora nem todos na lista votem em Flávio Bolsonaro – como Pedro Parente, que declarou publicamente não o apoiar e saiu de um jantar com impressão pior do candidato – a questão central permanece: o que significa a normalização de Flávio Bolsonaro como interlocutor para a elite? Moreira Salles questiona a ausência de uma “fronteira” moral, onde negociações políticas não deveriam incluir o abandono de princípios democráticos em troca de vantagens econômicas.
O Preço da Democracia
Moreira Salles provoca a reflexão sobre quanto vale a democracia, ironizando a possibilidade de trocar princípios essenciais, como a rejeição à tortura ou a golpes de Estado, por políticas econômicas convenientes. Ele aponta que esses empresários, acostumados a analisar riscos e fazer due diligence em negócios de milhões, parecem aplicar uma lógica diferente quando o ativo em questão é a Presidência da República. O ensaio elenca fatos conhecidos sobre Flávio Bolsonaro, como sua relação com Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega, as denúncias de “rachadinhas” e sua defesa pública da legalização das milícias, além de sua minimização dos eventos de 8 de janeiro.
A conclusão do ensaio é que não há justificativa para o desconhecimento. Flávio Bolsonaro não surgiu de repente na política, e ele mesmo faz questão de se apresentar como herdeiro e continuador do legado de seu pai, Jair Bolsonaro. Moreira Salles adverte que a elite que aceita conversar com Flávio está, na verdade, dialogando com o próprio Jair Bolsonaro, pois o filho exibe o pai como seu “certificado de origem”. A normalidade com que isso é tratado, a despeito do histórico e das promessas de continuidade, é o que o autor considera mais escandaloso, lembrando que em 2018 muitos alegaram não saber o que aconteceria, mas os resultados foram vistos por todo o Brasil.






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